Receber uma pensão e viver de forma autónoma está a tornar-se um objetivo cada vez mais difícil para muitos idosos. O caso de Encarna, uma reformada de 67 anos em Espanha, é um exemplo disso: contou na imprensa espanhola que teve de partilhar casa porque não consegue suportar, sozinha, os custos da renda.
Segundo o El Español, diário digital espanhol, Encarna foi direta ao explicar a razão: “a minha capacidade económica não consegue fazer face a uma renda”. E a reformada de 67 anos acrescentou: “eu recebo cerca de 800 euros de pensão e o aluguer de um quarto já supera os 500 euros”.
O mesmo relato é retomado pelo Noticias Trabajo, site espanhol especializado em assuntos legais e laborais, que enquadra o caso na pressão crescente do mercado de arrendamento.
A habitação deixou de ser apenas um problema dos jovens
Durante anos, a dificuldade no acesso à habitação foi associada sobretudo às gerações mais novas. No entanto, as reportagens sublinham que a escalada das rendas está a empurrar também reformados para situações de maior vulnerabilidade, obrigando-os a procurar alternativas como a partilha de casa.
No testemunho citado, Encarna diz que é de Barcelona e que, em Valência, está sem família, o que torna a partilha de habitação não só uma necessidade financeira como também uma forma de não se sentir sozinha.
Quando a pensão vai quase toda para a renda
Com uma pensão na ordem dos 800 euros, valores acima de 500 euros para renda de alojamento consomem uma fatia muito elevada do rendimento mensal desta reformada de 67 anos, deixando pouco espaço para despesas essenciais como alimentação, medicamentos ou serviços básicos.
Ainda assim, Encarna admite, segundo o Noticias Trabajo, que a convivência “é boa” e que estar acompanhada ajuda a combater a solidão, embora a solução resulte de necessidade e não de escolha.
Rendas em máximos históricos agravam o problema
Os números do mercado ajudam a perceber o contexto. A Fotocasa Research, plataforma de análise de dados de mercado imobiliário espanhol, indicava que, em setembro de 2025, o preço médio nacional do arrendamento em Espanha estava nos 13,69 euros/m² por mês, o que colocava uma casa “típica” de 80 m² perto dos 1.095 euros mensais.
Por sua vez, os dados do idealista mostram que o mercado fechou dezembro de 2025 com um custo médio nacional de 14,7 euros/m² (um novo máximo, segundo o portal imobiliário).
E em grandes cidades os valores são ainda mais altos: em Barcelona e Madrid, por exemplo, os preços por metro quadrado ficam muito acima da média nacional, e Valência também surge com níveis elevados.
Falta de respostas públicas aprofunda a vulnerabilidade
As reportagens apontam ainda para a falta de soluções públicas suficientes (habitação social e arrendamento acessível) como um fator que agrava a vulnerabilidade económica e emocional na velhice, sobretudo quando não existe casa própria.
E em Portugal?
Embora o caso de Encarna diga respeito a Espanha, a pressão da habitação não é exclusiva desse país, sendo uma realidade presente noutros países europeus.
Em Portugal, por exemplo, o INE (citado pela RTP/Lusa) indicou que a renda mediana dos novos contratos de arrendamento para habitação em 2024 foi de 7,97 euros/m², com valores bem acima da média em zonas como a Grande Lisboa (13,06 euros/m²) e Lisboa (15,93 euros/m²).
Ao mesmo tempo, os rendimentos de muitos pensionistas continuam baixos: o Banco de Portugal refere que, em 2024, a pensão média de velhice no regime geral rondava 645 euros, mas metade dos pensionistas recebia menos de 462 euros.
Ou seja, em áreas onde as rendas (sobretudo em novos contratos) são mais elevadas, a pressão sobre quem vive apenas da pensão pode tornar-se muito pesada.
















