O rápido envelhecimento da população voltou a colocar em cima da mesa um dos debates mais sensíveis em Espanha: até que ponto o atual sistema público de pensões é sustentável a longo prazo. Com uma esperança de vida cada vez mais elevada e uma natalidade em mínimos históricos, cresce a preocupação com o equilíbrio entre trabalhadores no ativo e pensionistas, levando alguns especialistas a admitir cenários que estão a gerar preocupação crescente entre os espanhóis, num contexto de sucessivos aumentos da idade da reforma, segundo o jornal digital Noticias Trabajo.
Este tema foi recentemente abordado pelo economista Luis Garvía durante a participação no programa televisivo Y Ahora Sonsoles, onde destacou a dimensão do desafio que o envelhecimento demográfico representa para o Estado social espanhol.
Esperança de vida aumentou uma década em apenas 20 anos
Segundo o economista, a evolução da esperança de vida é um dos fatores centrais deste problema. “A esperança de vida há 20 anos era de 74 anos; agora vivemos 84 anos”, recordou, sublinhando que este aumento prolonga de forma significativa o período durante o qual as pensões têm de ser pagas.
Este fenómeno, explicou, obriga a repensar todo o modelo de financiamento do sistema, uma vez que mais anos de vida significam também mais anos de reformas, cuidados de saúde e apoio social.
Menos contribuintes por cada pensionista
A par da maior longevidade, a relação entre contribuintes e pensionistas deteriorou-se de forma acentuada nas últimas décadas. De acordo com os dados citados por Luis Garvía, “há 20 anos havia cinco pessoas a descontar por cada reformado; hoje são apenas 2,3”.
Esta evolução traduz-se num aumento significativo da despesa pública associada à população mais velha, não apenas com pensões, mas também com serviços de dependência, cuidados continuados e apoio social, pressionando as contas públicas, refere a mesma fonte. Este cenário surge numa altura em que a idade legal da reforma tem vindo a subir de forma progressiva em Espanha, alimentando o receio de que futuras alterações possam exigir carreiras contributivas ainda mais longas.
“Matematicamente, a reforma teria de ser aos 72 anos”
Questionado sobre qual deveria ser, hoje, a idade da reforma para garantir o equilíbrio do sistema, o economista foi direto. “Aos 72 anos, segundo cálculos matemáticos, para que as contas batessem”, afirmou, reconhecendo tratar-se de um valor muito acima da idade legal atualmente em vigor.
A referência a uma idade tão elevada voltou a acender o debate público em Espanha, onde muitos cidadãos manifestam preocupação com a possibilidade de novos aumentos no futuro. Aqui ‘ao lado’, em 2026, a idade legal da reforma é de 66 anos e 10 meses para quem tenha menos de 38 anos e três meses de descontos, ou de 65 anos para quem ultrapasse esse período contributivo.
Uma tendência que já está na lei, mas pode não ser suficiente
Segundo o Noticias Trabajo, Luis Garvía recordou ainda que a legislação aprovada em 2013 prevê um aumento progressivo da idade da reforma até 2027. No entanto, alertou que a evolução demográfica pode tornar esse ajuste insuficiente.
“Se olharmos para as pessoas que nascem em Espanha e para as que se estão a reformar, o problema é que não estamos melhor do que há 10 anos”, afirmou, reforçando a ideia de que o envelhecimento da população continua a agravar-se.
Mais anos de vida, mais desafios sociais
O economista sublinhou que o problema não reside apenas no pagamento das pensões. “O problema é que, felizmente, vamos viver muito mais”, explicou, chamando a atenção para o impacto crescente das questões ligadas à dependência e à saúde mental na população idosa.
Estes fatores, segundo o especialista, aumentam de forma significativa o esforço financeiro do Estado e tornam inevitável um debate profundo sobre o futuro do sistema de pensões e das políticas sociais em Espanha, num contexto em que cada vez menos trabalhadores sustentam uma população reformada cada vez maior.
Em Portugal, o envelhecimento da população e a sustentabilidade do sistema de pensões também são temas em debate, num contexto marcado pelo aumento da esperança de vida e pela baixa natalidade, desafios semelhantes aos que hoje preocupam Espanha.
















