Um caso insólito chegou recentemente aos tribunais em Espanha e rapidamente ganhou destaque mediático. Tudo começou numa conhecida pizzaria de Vigo, onde um funcionário foi acusado de falsificar registos de entrada e saída, mas o que mais surpreendeu foi a atitude de pedir uma pizza da concorrência e comê-la diante dos clientes.
De acordo com o jornal espanhol AS, a situação levou a empresa a avançar com o despedimento do trabalhador, que, por sua vez, decidiu contestar a decisão em tribunal. A disputa chegou até ao Tribunal Superior de Justiça da Galiza (TSJG), que acabou por validar a posição do restaurante.
Registos de jornada adulterados
O funcionário trabalhava na pizzaria desde 2022. No entanto, no ano seguinte começaram a surgir as primeiras irregularidades. Em determinado dia chegou com 40 minutos de atraso, mas registou a entrada como se tivesse cumprido o horário normal.
Pouco tempo depois, voltou a manipular os registos. Ao sentir-se indisposto, abandonou o local às 14h00, mas assinalou no sistema que tinha saído às 16h00, como se tivesse terminado a jornada completa.
O episódio da pizza concorrente
Apesar destes episódios, o momento mais marcante aconteceu quando, durante o serviço, o trabalhador se queixou de fome. O responsável ofereceu-lhe um pedaço de pizza da casa, mas este recusou. Em alternativa, decidiu encomendar uma pizza de outra pizzaria e, sem qualquer reserva, comeu-a no balcão, diante dos clientes.
Para a entidade patronal, o gesto representou um claro desrespeito pela empresa e pelos seus produtos, algo que poderia prejudicar seriamente a imagem do restaurante.
A batalha legal
Após o despedimento, que ocorreu em setembro de 2023, o trabalhador apresentou uma ação judicial, alegando que nunca tinha sido alvo de sanções anteriores. Defendeu ainda que a gravidade dos factos não justificava a rescisão do contrato.
O Juzgado de lo Social n.º 6 de Vigo rejeitou o pedido e deu razão ao restaurante. Inconformado, o funcionário recorreu para o TSJG, esperando reverter a decisão.
Tribunal confirma despedimento
O Tribunal Superior de Justiça da Galiza confirmou o veredito inicial, declarando o despedimento como procedente. Para os juízes, os três episódios descritos eram suficientes para caracterizar uma violação da boa fé contratual.
No acórdão, o tribunal sublinhou que “se o trabalhador comesse pizzas da concorrência diante dos clientes podia dar a impressão de que a pizzaria oferecia um produto de pior qualidade, prejudicando a sua imagem.”
A importância da boa fé
O caso revela como a confiança e a lealdade são elementos centrais na relação laboral. Pequenos gestos que possam afetar a credibilidade de uma empresa são vistos pela lei como uma transgressão séria.
Neste cenário, a decisão judicial reforça a ideia de que, para além da assiduidade e pontualidade, também o respeito pela imagem da entidade empregadora é um dever dos trabalhadores.
Consequências para o futuro
Apesar de a decisão ser clara, a defesa do funcionário ainda admitiu a possibilidade de tentar outras vias legais, de acordo com a mesma fonte. No entanto, os especialistas em direito laboral recordam que, perante os factos apurados, a margem de manobra será reduzida.
O episódio serve de alerta a empresas e trabalhadores sobre a importância de registos fiéis e do cumprimento das normas básicas de convivência no local de trabalho.
Mais do que uma questão disciplinar
Ao falsificar os horários e, sobretudo, ao recorrer à concorrência em pleno serviço, o trabalhador acabou por quebrar a relação de confiança. Esta quebra é precisamente um dos fundamentos que a lei prevê para justificar um despedimento disciplinar, segundo o AS.
Em última análise, este caso mostra como determinados comportamentos podem ser interpretados pelos tribunais como tendo “vontade intencional de prejudicar a empresa”, expressão usada na própria sentença.
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