A diferença de preços nos combustíveis entre Portugal e Espanha voltou a ganhar uma dimensão difícil de ignorar. Nas últimas semanas, a combinação entre a subida contínua dos preços em território nacional e a redução significativa da carga fiscal no país vizinho desencadeou uma verdadeira corrida aos postos espanhóis, sobretudo nas zonas fronteiriças. O cenário repete‑se ao longo da raia: filas de carros com matrícula portuguesa, depósitos a encher e contas que, no final, ficam claramente mais leves.
Uma poupança que salta à vista
Na localidade espanhola de Rosal de la Frontera, em Huelva, a poucos metros da fronteira portuguesa, a imagem tornou‑se rotineira. A maioria dos clientes que pára para abastecer vem de Portugal.
De acordo com o Notícias ao Minuto, que cita o Huelva24, um site espanhol de informação regional especializado na actualidade da província de Huelva, sete a oito em cada dez clientes são portugueses, uma proporção que se tornou ainda mais evidente nas últimas semanas.
A diferença de preços explica o fenómeno. Segundo relatos recolhidos no local, a gasolina e o gasóleo podem custar menos 40 a 50 cêntimos por litro em Espanha. Numa viatura com um depósito médio de 55 litros, a poupança final oscila entre 16 e 27 euros, um valor que compensa facilmente a deslocação, mesmo para quem vive a algumas dezenas de quilómetros da fronteira.
Não raramente, os automobilistas aproveitam a viagem para adquirir também garrafas de gás, outro produto cujo preço final se revela mais baixo do lado espanhol.
IVA mais baixo acelera a procura
Este movimento intensificou‑se depois de o Governo espanhol ter decidido reduzir o Imposto sobre o Valor Acrescentado aplicado aos combustíveis, à electricidade e ao gás natural. A taxa passou de 21% para 10%, o mínimo permitido pela legislação europeia, no âmbito de um pacote de medidas destinado a mitigar o impacto da actual crise energética associada ao conflito no Médio Oriente.
A decisão integrou um Plano Integral de Resposta aprovado em Conselho de Ministros extraordinário, que reúne cerca de 80 medidas. Para além da redução do IVA, o plano prevê a descida ou suspensão temporária de outros impostos ligados à produção e consumo de energia, bem como apoios específicos a sectores mais expostos, como os transportes, a agropecuária e a pesca.
Estão ainda previstos descontos no gasóleo profissional, ajudas para a compra de fertilizantes e o reforço dos apoios à electricidade para famílias consideradas vulneráveis.
No sector do gás, foi também estabelecido um preço máximo para o butano e o propano, enquanto na electricidade a carga fiscal global deverá cair cerca de 60%. O esforço financeiro estimado pelo executivo espanhol ascende a cinco mil milhões de euros, um montante que o primeiro‑ministro Pedro Sánchez associou directamente ao custo económico da actual conjuntura internacional.
Um fenómeno antigo com nova intensidade
A diferença de preços entre os dois países não é nova, mas raramente foi tão expressiva durante um período tão prolongado.
Nos últimos dias, registaram‑se algumas descidas pontuais no preço médio do gasóleo em Portugal, embora nem todos os postos tenham aplicado de imediato essas reduções, o que contribuiu para manter a atracção das bombas espanholas.
Enquanto a pressão se mantiver do lado português e o desagravamento fiscal vigorar em Espanha, tudo indica que a travessia da fronteira continuará a fazer parte da rotina de muitos automobilistas.
Esta diferença de preços transformou‑se num factor determinante na gestão do orçamento familiar de quem vive perto da linha divisória, reforçando um hábito antigo que ganhou agora uma dimensão quase quotidiana.
Leia também: Adeus 50 km/h? Governo admite que este pode ser o novo limite de velocidade nas localidades em Portugal














