Tavira perdeu este sábado, 8 de novembro, uma das suas vozes mais ativas e generosas – Tela Leão Guarani Kaiowá, programadora cultural, criadora de conteúdos e ativista cívica, morreu aos 74 anos, vítima de doença prolongada. Brasileira de nascimento e tavirense por escolha há quase duas décadas, foi presença regular nas páginas do Postal do Algarve e uma força motriz na afirmação de Tavira como cidade de cultura.
A notícia da morte gerou inúmeras manifestações de pesar. “Tavira teve hoje uma perda irreparável”, escreveu a sua amiga e parceira de projetos Fernanda Guerra, sublinhando o talento de Tela para juntar instituições, escolas, artistas, voluntários e público em torno de uma ideia simples e poderosa: fazer da cultura um lugar de encontro. “Um obrigada infinito, querida amiga”, acrescentou.
Uma vida dedicada às artes e à cidade
Nascida em Manaus, Tela Leão estudou música (Instituto Musical de São Paulo e Pro Arte), tradução literária (Associação Alumni, São Paulo) e frequentou Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo. Foi atriz profissional, dramaturga (argumentista) e programadora cultural. Trabalhou como assistente de realização e produtora em publicidade durante mais de vinte anos no Brasil, escreveu documentários com enfoque ambiental — entre os quais Natureza Morta, sobre a zona industrial de Cubatão — e assinou textos de ficção como A Concubina Japonesa, apresentados no Brasil e em Portugal.
Em 1991 mudou-se para Lisboa, onde assumiu responsabilidades de grande escala: foi diretora‑adjunta de Programação Cultural na Expo 98, dirigiu a programação cultural da representação portuguesa na Expo 2000 (Hannover) e coordenou a participação nacional na Expo 2008 (Zaragoza). Em Lisboa, integrou ainda equipas de programação de eventos como Lisboa em Festa (2003 e 2004) e colaborou com a EGEAC.
Em 2007 escolheu Tavira para viver e criar. A partir daí, como programadora independente, impulsionou projetos através da associação Partilha Alternativa — da qual foi presidente — e no âmbito do movimento cívico e agenda cultural Tavira Ilimitada, combatendo o racismo e a xenofobia e promovendo a participação cidadã.
A Festa dos Anos de Álvaro de Campos: o projeto‑símbolo
Entre as muitas iniciativas que concebeu, a Festa dos Anos de Álvaro de Campos tornou‑se a sua marca de água. Todos os anos, entre 15 de outubro — “nascimento” do heterónimo de Fernando Pessoa — e 30 de novembro, Tavira transformava‑se num palco plural: poesia, música, teatro, artes visuais, cinema, conversas, passeios e oficinas. No âmbito da Festa, criou roteiros para performances poéticas, apresentadas ao vivo ou através de suportes audiovisuais, como material gravado ou emissão em direto (live streaming).
Tela tinha o dom de pôr toda a gente a trabalhar lado a lado. Envolveu associações culturais, pastelarias (que criaram doces inspirados em Fernando Pessoa/Álvaro de Campos), a Fundação Irene Rolo (com o seu emblemático arroz‑doce), o Centro Ciência Viva de Tavira (com observações da Lua) e, decisivamente, as escolas. Com os professores Reinaldo Barros e Ana Cristina Matias e o ator Vítor Correia, mobilizou centenas de alunos para projetos de artes visuais, poesia e teatro que, ano após ano, alimentaram um público novo para a cultura.
Uma parceria de casa cheia com o Postal do Algarve
Amiga e colaboradora antiga do Postal do Algarve, Tela coordenava em novembro, em parceria anual com este jornal, a rubrica “Um Mês de Poesia”: diariamente, de 1 a 30, os colaboradores de instituições do concelho eram convidadas a escolher um poema (ou excerto) para publicar no Postal online. As escolhas eram ilustradas por um núcleo de fotógrafos que lhe era particularmente caro: Ana Carvalho, Ana Gouveia, Belarmino Pereira, Fernando Ricardo, Mário Rui Gouveia e Miguel Andrade.
Projetos, cargos e criações (seleção)
- Partilha Alternativa — fundadora e presidente da direção; produção e curadoria de múltiplos projetos.
- Tavira Ilimitada — dinamização cívica e agenda cultural.
- Festa dos Anos de Álvaro de Campos — conceção, direção e produção.
- “Uníssono Virtual do Hino Nacional” — autora do programa no âmbito do Centenário da República Portuguesa.
- Expo 98 (Lisboa) — diretora‑adjunta de Programação Cultural.
- Expo 2000 (Hannover) e Expo 2008 (Zaragoza) — direção de programação cultural da representação portuguesa.
- Lisboa em Festa (2003–2004) — coordenação de programação.
- Conta‑me Outros Fados, AMOR E MEDO, Villa‑Lobos em Movimento — argumentista e (co)diretora artística.
- Colaborações com Mãos na Arte, Memórias Vivas da Casa Rural (Monte Figo) e outros coletivos.
Família, amigos e legado
Tela era casada com o jornalista, crítico e dramaturgo Rudolf Engelander e tinha um filho, igualmente ligado ao meio cultural. Aos dois, à família alargada, aos amigos e à vasta comunidade artística e escolar que com ela trabalhou, o Postal do Algarve endereça sentidas condolências.
Fica o legado: uma ideia de cultura aberta, feita com e para as pessoas, em que Tavira se reconhece e projeta. E ficam também os versos de Álvaro de Campos que tantas vezes levou à rua e às salas da cidade: “Tudo isso vive, porque morre, dentro do meu coração.”

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