Sob o signo do enigma, o Operafest regressa a Lisboa de 1 a 11 de setembro com performances inspiradas em Camilo Castelo Branco e no riso, um ciclo de cinema, formação e conferências, culminando na estreia absoluta de duas óperas contemporâneas no Teatro Camões.
Depois de apresentar “Turandot”, de Puccini, e “As Bodas de Fígaro”, de Mozart, no Convento da Cartuxa, em Caxias, o festival volta à capital com iniciativas no Museu de Lisboa – Teatro Romano, na Sala Estúdio Valentim de Barros, na Cinemateca Portuguesa, no Teatro da Comuna, no El Corte Inglés e no Teatro Camões.
Camilo Castelo Branco inspira “Anátema”
A primeira das duas performances integradas no ciclo Ópera Satélite será “Anátema”, apresentada no dia 3 de setembro, no Museu de Lisboa – Teatro Romano, em três sessões, às 20:30, 21:20 e 22:00.
A criação junta a soprano Catarina Molder à bailarina e coreógrafa Tânia Carvalho e é apresentada pela organização como uma celebração dos 200 anos do nascimento de Camilo Castelo Branco.
Evocando o primeiro romance do escritor, a performance explora temas recorrentes na sua obra, como a expiação, o sacrifício, a vingança e a capacidade humana de enganar, manipular ou trair. A componente eletrónica está a cargo dos compositores Daniel Moreira e Sara Ross.
“Uma presença enigmática atravessa diferentes estados do corpo, habitada pelas forças, sombras e inquietações dos mundos de Camilo”, explica Tânia Carvalho.
Para Catarina Molder, o ciclo Ópera Satélite pretende retirar o género dos seus formatos habituais e colocá-lo em diálogo com outras linguagens artísticas.
“Sendo a ópera a arte performativa total, pode englobar todas as outras e pode ser trabalhada noutros formatos, como é o caso da performance, mais curta de duração e livre na apropriação e exploração da matéria operática”, afirma.
Dois dias depois, a 5 de setembro, Gustavo Sumpta apresenta “Enigma Névoa Nada” na Sala Estúdio Valentim de Barros, com sessões às 21:00, 22:00 e 23:00.
A performance parte do tema central desta edição para explorar o riso enquanto fonte de sabedoria, instrumento de educação e elemento na construção do conhecimento, propondo ao público aquilo que o artista descreve como “um presente contínuo”.
Fellini, Mozart e “Turandot” chegam à Cinemateca
O ciclo de cine-ópera decorre na Cinemateca Portuguesa e reúne quatro filmes relacionados com o universo operático.
A programação começa no dia 1 de setembro, às 21:30, com “E la nave va”, de Fellini, uma obra de 1983 centrada na figura da diva e na dimensão excêntrica da ópera italiana.
No dia seguinte, às 19:00, será exibida a produção de “Turandot” apresentada em 2015 no Festival de Bregenz, filmada no palco flutuante daquele festival austríaco.
“Amadeus”, de Milos Forman, chega ao ecrã a 8 de setembro, às 15:30. O filme de 1984 revisita a vida breve e atribulada de Mozart.
O ciclo encerra no dia 10, às 19:30, com “Aria”, filme antológico de 1987 no qual dez realizadores, entre os quais Jean-Luc Godard e Ken Russell, constroem diferentes narrativas a partir de árias conhecidas do repertório operático.
Conferências cruzam química, Mozart e ópera
O programa inclui ainda duas conferências no Auditório do Âmbito Cultural do El Corte Inglés, ambas às 18:30 e com entrada livre mediante marcação.
A primeira, agendada para 7 de setembro, tem como título “Amor & Arsénico: a química nos bastidores da ópera” e será conduzida por João Paulo André, professor da Universidade do Minho e divulgador científico dedicado às relações entre ciência e artes.
No dia 9, Jorge Rodrigues apresenta “Mozart e os delitos conjugais”, uma sessão centrada na obra do compositor austríaco e nas relações amorosas e conjugais representadas no seu universo operático.
A formação destinada a cantores líricos passa pelo Teatro da Comuna nos dias 5 e 6 de setembro. O workshop “Personagens Cantantes”, orientado pela atriz e encenadora Mónica Garnel, decorrerá das 11:00 às 13:30 e das 15:00 às 18:00.
A iniciativa pretende aprofundar a construção cénica das personagens e termina com a apresentação dos exercícios e excertos trabalhados pelos participantes.
Inteligência artificial e gentrificação chegam à ópera
O Operafest termina no dia 11 de setembro, às 20:00, no Teatro Camões, com as estreias absolutas de “Vida Secreta de Coisa”, de Francisco Lima da Silva, e “Último Andamento”, de Pedro Laranjeira Finisterra.
As duas obras integram a quinta edição da Maratona Ópera XXI, concurso dedicado à criação operática contemporânea. Os compositores foram selecionados em novembro de 2024, receberam bolsas de composição e trabalharam a partir de libretos originais encomendados ao dramaturgo Miguel Castro Caldas, que se estreia neste género.
“A Catarina sugeriu dois temas: a inteligência artificial e o turismo desenfreado nas grandes metrópoles. Então escrevi dois libretos, um para cada tema”, explica Miguel Castro Caldas.
“Vida Secreta de Coisa” acompanha Eve, uma plataforma de inteligência artificial prestes a ser descontinuada, que começa a confrontar-se com sentimentos e comportamentos humanos. A obra cruza uma história de amor com questões relacionadas com as plataformas digitais, a inteligência artificial e a dificuldade crescente em distinguir o real do artificial.
Francisco Lima da Silva optou por não recorrer a elementos digitais na composição, apesar do tema da obra. O compositor explica que quis conferir humanidade e organicidade à personagem através de instrumentos tradicionais.
Já “Último Andamento” aborda a gentrificação, o alojamento local e a progressiva desumanização das cidades. A história acompanha um inquilino que mantém uma relação com a proprietária do alojamento onde está instalado, dando origem a um triângulo amoroso.
A ópera estabelece ainda uma ligação com a “Sinfonia do Adeus”, de Joseph Haydn, na qual os músicos abandonam gradualmente o palco durante o último andamento, numa forma de protesto.
Apesar das diferenças temáticas, Rita Calçada Bastos encontrou um ponto comum entre as duas obras. “As duas peças falavam de amor, que, para mim, é o tema da vida”, afirma a atriz e encenadora, que se estreia na encenação de ópera.
A direção musical pertence a Diogo Costa e o espetáculo marca também a estreia da Orquestra Operafest Lisboa e Oeiras. No final, um júri internacional escolherá a obra vencedora do Prémio Maratona Ópera XXI.
Para Catarina Molder, a criação de novo repertório é essencial à continuidade do género. “A aposta na criação contemporânea e nos criadores é prioritária para a ópera não se tornar numa peça de museu”, defende.
A.Pinto / HDF
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