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Cultura

David Bowie nasceu há 75 anos. Com 20 anos lançava o seu primeiro álbum [vídeo]

Nasceu a 8 de janeiro de 1947, faz este sábado 75 anos. Em 1967, com 20, lançava o primeiro álbum, mas foi em 1969 que, com “Space Oddity”, deu a primeira pegada importante na pop. Viajamos aos anos em que Bowie estava quase a tornar-se uma estrela David Bowie nasceu em 1947 em Brixton, Londres.

15:35 8 Janeiro, 2022 15:39 8 Janeiro, 2022
Cristina MendonçaCristina MendonçaJornalista
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Nasceu a 8 de janeiro de 1947, faz este sábado 75 anos. Em 1967, com 20, lançava o primeiro álbum, mas foi em 1969 que, com “Space Oddity”, deu a primeira pegada importante na pop. Viajamos aos anos em que Bowie estava quase a tornar-se uma estrela

David Bowie nasceu em 1947 em Brixton, Londres, cidade que haveria de ajudar a transformar a partir de finais dos “swinging sixties”, quando a sua carreira disparou em direcção às estrelas. Quando tinha apenas seis anos, Bowie, que na época ainda respondia pelo apelido do seu pai, Jones, mudou-se com a família para Kent onde frequentou a Bromley Technical High School For Boys. Foi nessa escola que Bowie conheceu George Underwood, que haveria de desenhar algumas capas dos seus primeiros discos. Mas, talvez mais importante do que isso, George Underwood foi o responsável pelo golpe que feriu o olho esquerdo de Bowie, aos 15 anos, numa luta por causa de uma rapariga. Após várias operações, os médicos conseguiram salvar a visão, mas o olho atingido ficou com a pupila permanentemente dilatada, afectando a percepção de profundidade de David e dando a impressão de que cada olho tem uma cor diferente. Nasceu aí o olhar misterioso explorado em tantas capas de discos. A adolescência é um período formativo sempre importante e para Bowie não foi diferente. Aos 11 anos viu The Defiant Ones, filme com Tony Curtis e Sidney Poitier que desempenham os papéis de dois prisioneiros que escapam acorrentados um ao outro e que apesar das diferenças, inclusivamente de pele, têm que aprender a cooperar para sobreviver. Aos 13 anos, Bowie leu Kerouac pela primeira vez e depois descobriu a música.

Um saxofonista de música extrema

“A primeira pessoa que eu realmente ouvi foi Acker Bilk. Ele era um homem do jazz e quando houve um boom no jazz tradicional ele liderou todo esse movimento. Eu tocava saxofone tenor na época. Bem, na verdade comecei por comprar um pequeno saxofone de plástico branco. Já viste um desses? Penso que o Coleman Hawkins tocava um. era muito barato e muito bom. Era um saxofone alto e eu tocava-o”, recordou Bowie em 1972 a Richard Cromelin, da Phonograph Record. “Depois apareceu o Little Richard”, continuou Bowie, referindo-se a uma colecção de singles que o seu pai trouxe para casa e que incluía Fats Domino, Chuck Berry e, claro, o mais extravagante pioneiro do rock and roll, Little Richard. “Na verdade, o Little Richard só apareceu na minha vida depois do John Coltrane”, corrigiu o cantor que teve no seu meioirmão, Terry, a primeira influência determinante para se aproximar do jazz. “Foi um salto enorme até porque eu não cheguei a entender o Coltrane nessa idade. Toquei num grupo de jazz moderno e também em bandas de rock misturas de qualquer coisa: rock and roll e o que quer que fosse que requeresse um saxofone, excepto música de bailes. Eu tocava música extrema ou rock and roll ou jazz”. Os Konrads, os King Bees, os Manish Boys, os Lower Third e até os Riot Squad foram várias das formações que David Bowie criou ainda na primeira metade dos anos 60.

A tocar saxofone nos Konrads

O desejo de deixar a sua marca no mundo da música superava tudo, mas haveria de ser no mais profundo silêncio que este cantor descobriria a sua voz. Determinado a experimentar qualquer caminho que o conduzisse ao mundo dos estúdios e das edições, Bowie estreou-se em 1964 com “Liza Jane”, single creditado a David Jones and the King Bees e lançado numa etiqueta da Decca, a Vocalion Pop. O single não vendeu, apesar de ser hoje um cobiçado objecto de colecção que em bom estado de conservação pode ultrapassar os dois mil euros. Alguns anos depois deste single ser lançado, o então manager de Bowie, Leslie Conn, estava a viver em Maiorca, Espanha, e terá recebido um telefonema da sua mãe a queixar-se do espaço ocupado por caixas com algumas centenas de exemplares desse raro single. Conn, certamente não convencido do potencial de sucesso de Bowie, pediu à mãe que deitasse fora essas caixas. Cansado da vida das bandas, que não parecia conduzi-lo onde desejava, Bowie começou a apresentar-se em público sozinho, com a sua guitarra, e a cantar temas da sua própria autoria, em vez de criações alheias, como tinha sido o caso de “Liza Jane”. Mudou de nome (inspirando-se no herói do Álamo, Jim Bowie) para evitar confusões com outros Davy Jones nomeadamente o dos Monkees e começou a procurar a sua própria voz. O gesto valeu-lhe a atenção da Deram, recém formada etiqueta da Decca que pretendia manter-se a par dos novos tempos, que o assinou ao mesmo tempo que um tal Cat Stevens. “Cat ganhou”, ironizava Bowie em 1972 nas páginas da Phonograph Record, aproveitadas igualmente para renegar os resultados do álbum de estreia, em 1967: “Em “Love You Till Tuesday” pareço o Tony Newley”, desabafava Bowie, referindo-se a Anthony Newley, popular cantor de music hall e uma influência nesta época. “Aliás eu pareço mais o Tony Newley do que o próprio Tony Newley”. O primeiro álbum da carreira de David Bowie acabou por se sagrar apenas como um arranque em falso, apesar de a confusão de referências canções de vaudeville e music hall, a british invasion pop dos Kinks, folk e ecos de uma certa vanguarda render alguns momentos memoráveis, como “Uncle Arthur” ou “Little Bombardier”.

Assim nasce um camaleão

Depois da aposta em Cat Stevens se ter revelado ganhadora, Bowie, desiludido, abandonou a carreira durante algum tempo, aproveitando para se dedicar ao estudo do budismo. Foi nessa altura que conheceu Lindsay Kemp. Mimo extraordinário que chegou a estudar com Marcel Marceau, Kemp misturava o butô japonês, traços do burlesco, o exagero do travesti e a tradição do music hall para criar um universo muito pessoal que marcaria a carreira de Bowie, mas também de Kate Bush, que trabalhou no guarda-roupa da sua companhia. Kemp haveria de subir ao palco do Rainbow Theatre para os famosos concertos de Ziggy Stardust, entrou em vídeos de Bowie e de Kate Bush e filmou Sebastiane e Jubillee (ao lado de Toyah Wilcox, Adam Ant e Siouxsie) de Derek Jarman. Mais tarde apareceu igualmente em Velvet Goldmine, de Todd Haynes. “Conheci um tipo chamado Lindsay Kemp”, recordava Bowie em 1972, “que era mimo em Londres. Ele tinha um espectáculo a solo e tocou um dos meus discos durante o intervalo, como música ambiente. E por isso fui aos bastidores. Ficámos contentes por nos termos conhecido um ao outro e ele perguntou-me se eu poderia escrever mais alguma música para as coisas dele e eu respondi “só se me ensinares a ser mimo””. Bowie entrou para a companhia, começou a escrever peças com Lindsay e rezam alguns rumores (que podem ter sido lançados pelo próprio mimo) que nasceu aí um romance que terá até levado o actor a uma teatral tentativa de suicídio. “O Lindsay Kemp era um Pierrot vivo. Ele vivia e falava como o Pierrot. Ele era trágico e dramático e tudo isso na sua vida teatral. E por isso o palco para ele era apenas uma extensão de si mesmo. Há muito material da sua vida privada que superaria qualquer guião. Mas nós utilizávamos as figuras de Columbine, Pierrot e Scaramouche, figuras tradicionais. Também usámos algum Genet – o Lindsay gostava muito de Genet e algum Óscar Wilde, algum Joyce”. Este episódio da vida de Bowie seria marcante: mais tarde, em “Ashes to Ashes”, que Bowie descreveu como a música para o funeral dos seus anos 70, Bowie usaria o fato de Pierrot. E, claro, as profundas referências literárias herdadas de Kemp parecem ter norteado a produção lírica de Bowie, que foi sempre mais intelectual do que a sua dimensão pop deixaria adivinhar numa primeira análise, como é claríssimo em “Jean Genie”. Esta injecção de silêncio na sua carreira permitiu-lhe encontrar a sua voz e a sua visão artística a partir de 1969, Bowie haveria de construir personagens para as diversas fases da sua carreira, assumindo um transformismo camaleónico que acabou por o definir enquanto artista.

1969, odisseia no espaço

“O primeiro álbum foi escrito em Beckenham e na estrada e o segundo foi composto em Londres. E eu penso que é aí que está a diferença”. Em 1972, Bowie referia-se a David Bowie (que nos Estados Unidos foi lançado como Man of Words/Man of Music e que em 1972 foi reeditado pela RCA como Space Oddity, título que reteve até aos dias de hoje) como o seu primeiro álbum, eliminando da sua história a hesitante estreia de 1967. Charles Shaar Murray, histórico jornalista do NME entre 72 e 86, escreveu com Roy Carr em Bowie: An Illustrated Record (de 1981) sobre Space Oddity: “Parte do disco pertencia a 1967 e outra parte a 1972, mas em 1969 tudo soava demasiado incongruente. Basicamente, David Bowie pode ser visto retrospectivamente como tudo o que Bowie tinha sido e parte do que ainda haveria de ser, tudo misturado e a lutar por controlo”. Já Penny Valentine, em 1969, descrevia-o na Sounds como um “Dylan tardio”. Logo na “verdadeira” estreia, Bowie parece ter desafiado as ideias pré-concebidas dos jornalistas, que lutavam com conceitos e comparações para o conseguirem descrever na fase inicial da sua carreira, antes de perceberem que todo o esforço de mudança em Bowie era, precisamente, uma tentativa de escapar à rigidez dessas classificações. Ron Ross, na Words and Music, de 1972, afirmava que “Bowie é paradoxalmente o mais fácil e o mais profundo dos actores rock: ele incorpora a beleza cósmica de Marc Bolan, a tacanhez de espírito operária de Rod Stewart, a dinâmica versatilidade sexual de Mick Jagger, a deliberada e destrutiva perversidade de Alice Cooper, e a dolorosa e auto-imposta alienação de “não-actores” como Cat Stevens e James Taylor (…). Bowie é tão Hollywood como os Byrds, Jackie Curtis ou Gloria Swanson, tão didáctico como um ensaísta do século XVIII (…) e tem tanta compaixão nas suas observações da tragédia da “classe média” como o James Joyce de The Dubliners. David Bowie”, conclui Ross, usando um pedaço intraduzível da língua de Shakespeare, “his pedigree aside, is one bitch of a rocker”. David Bowie, é hoje aparente, começou logo por ter muitas máscaras, assumindo a arena rock como um palco onde foi expondo um trabalho singular de transformação, usando a pop como linguagem uniformizadora das suas experiências.

Um homem na lua

Não é coincidência que o primeiro hit digno desse nome na discografia de David Bowie, o single “Space Oddity”, tenha beneficiado da primeira missão lunar da história. Editado no mesmo dia da alunagem em Julho de 1969, este tema que conta a história do Major Tom serviu inclusivamente de banda sonora às imagens do pequeno passo para o homem, mas grande para a humanidade que a BBC retransmitiu. O single não causou impacto nos Estados Unidos, mas em Inglaterra chegou a número 5 da tabela de vendas, pormenor que sublinhava a “britishness” de Bowie e a maior lentidão da América em abraçar este artista. Para as sessões do álbum que sairia uns meses mais tarde no Outono de 1969, Tony Visconti, produtor recrutado depois de um “não” de George Martin e que se tornaria a sombra de Bowie durante boa parte da sua carreira, chamou uma série de pesos pesados, incluindo o fabuloso baixista Herbie Flowers, responsável pelo baixo redondo de “Walk on the Wild Side” de Lou Reed ou pela gestão do groove no clássico Histoire de Melody Nelson de Serge Gainsbourg. Em canções como “Cygnet Committee”, que ultrapassa os nove minutos, Bowie já prenuncia o futuro: pontuada pelo baixo de Flowers, esta é uma canção cujo crescendo sublinha o pendor dramático de David Bowie, capaz de transformar uma canção num palco para a representação de complexas emoções. “Quis que este tema fosse um single, mas mais ninguém achou boa ideia”, referiu um irónico Bowie à Sounds em 1969. “É um bocado longo, se calhar. Trata-se basicamente de três pontos de vista separados sobre a secção mais militante do movimento hippie. O movimento traduziu um grande ideal, mas algo correu mal depois”. Bowie, tornou-se claro logo no arranque da sua carreira, nunca teve grande paciência para o passado e sempre preferiu antecipar o futuro. Enterrou o movimento hippie em 69, associou-se a Lou Reed e Iggy Pop na primeira metade dos anos 70, experimentou com Brian Eno na trilogia de Berlim, antecipou o movimento New Romantic em finais dos 70 e tornou-se uma super-estrela capaz de esgotar estádios em todo o mundo durante a década de 80. Em tempos mais recentes, Bowie tem andado mais calmo, mas ainda assim arranjou tempo para gravar com os TV on The Radio em Return to Cookie Mountain e para arrecadar um Grammy pela sua estrondosa carreira em 2006. Quarenta anos depois de Space Oddity o extraordinário é ser possível olhar para o momento fundador da carreira de David Bowie não como um pináculo ultrapassável, mas como o primeiro capítulo de um livro que ainda não chegou ao fim. “Controlo de terra para o major Tom, começar a contagem decrescente e ligar os motores, verifique a ignição e que o amor de Deus esteja contigo…”.

  • Texto: Rui Miguel Abreu
  • Fotos: Getty Images
  • Originalmente publicado na revista BLITZ de maio de 2009
  • Blitz do Expresso, parceiro do POSTAL

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