Quem já comparou os nomes dos dias da semana em português com os de outras línguas latinas, como espanhol, francês ou italiano, talvez tenha ficado a pensar por que razão usamos “segunda”, “terça” ou “quinta-feira”, enquanto os nossos vizinhos mantêm referências claras aos planetas ou aos deuses antigos. A resposta está na figura de um bispo do século VI, que residia na cidade mais antiga de Portugal e que mudou a tradição romana em nome da fé cristã.
O legado pagão nos dias da semana
Nas línguas latinas, como o espanhol (lunes, martes, miércoles) ou o francês (lundi, mardi, mercredi), os nomes dos dias da semana mantiveram a influência direta da mitologia romana. Cada dia era consagrado a uma divindade ou astro: o Sol, a Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vénus e Saturno.
O “Solis Dies” era o dia do Sol, centro do culto romano. Seguia-se o “Lunae Dies”, dedicado à Lua, e depois os dias de Marte (deus da guerra), Mercúrio (protetor dos comerciantes), Júpiter (deus-pai e criador da natureza), Vénus (deusa do amor e da fertilidade) e Saturno (deus do tempo e da reflexão).
A interferência da Igreja
Com o avanço do Cristianismo, surgiu a necessidade de afastar a população dos rituais pagãos, refere a VortexMag. O Concílio de Niceia, em 325, decidiu consagrar o primeiro dia da semana a Cristo, chamando-lhe Dies Dominica, o “Dia do Senhor”. Já o sétimo dia, em respeito à tradição judaica, passou a ser o sábado, herança do Shabbat.
Apesar destas mudanças, a maioria das regiões de influência latina manteve os restantes dias com os nomes pagãos. Mas houve uma exceção notável: o território que viria a ser Portugal, mais concretamente na cidade de Braga.
São Martinho de Dume: o apóstolo dos Suevos
O responsável por esta alteração foi, segundo a mesma fonte, São Martinho de Dume, bispo de Braga, uma figura de grande influência religiosa na Península Ibérica. Entre 561 e 563, presidiu ao Primeiro Concílio de Braga, onde propôs uma mudança drástica na forma de nomear os dias da semana.
Com o apoio da hierarquia da Igreja, defendeu que os dias deixassem de ser associados a divindades pagãs e passassem a refletir um calendário litúrgico cristão. Assim, os dias passaram a ser designados como dias de “férias”, ou seja, de festas religiosas.
De festa litúrgica a feira de mercado
Desde esse concílio, os dias da semana passaram a chamar-se: Dominica dies (domingo), Feria secunda (segunda-feira), Feria tertia (terça-feira), Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta e Sabbatum (sábado).
A palavra “feria”, no latim da época, significava “festa” ou “descanso religioso”. Com o tempo, essa expressão foi evoluindo na língua portuguesa para “feira”, mantendo a raiz original, mas perdendo o significado religioso. Curiosamente, é desta palavra “feria” que também vem o termo “feriado”.
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Porque dizemos terça e não “terceira-feira”?
Uma das curiosidades da evolução linguística portuguesa é a forma como a pronúncia foi preservada. Em vez de dizermos “primeira” ou “terceira-feira”, manteve-se o uso direto dos numerais latinos, daí termos “segunda-feira”, “terça-feira” e assim por diante.
A alteração proposta por São Martinho nunca chegou a ser adotada pelos outros episcopados da Península Ibérica. O modelo português tornou-se, por isso, um caso único entre as línguas românicas, de acordo com a mesma fonte.
Um plano (quase) mais ambicioso
No mesmo concílio, São Martinho chegou a propor uma mudança nos nomes dos planetas conhecidos na época, para afastar qualquer referência aos deuses romanos. No entanto, esta ideia acabou por ser rejeitada. Foi por isso que nomes como Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter ou Saturno permaneceram até hoje com a sua designação clássica.
Um hábito que atravessou oceanos
Quando Portugal se unificou como reino, a nomenclatura dos dias da semana já estava firmemente enraizada. E com a expansão marítima portuguesa, este hábito foi levado para outros continentes, sobretudo para o Brasil, onde, segundo a VortexMag, os dias continuam a ser chamados de segunda a sexta-feira. Apesar da aparente simplicidade, esta mudança linguística teve um peso cultural enorme. A troca dos deuses por números foi uma forma direta de afirmar a força da Igreja num território onde o paganismo ainda resistia.
No fundo, a história mostra-nos como uma decisão eclesiástica tomada em Braga há quase 1.500 anos moldou a forma como milhões de pessoas nomeiam os dias da semana. Tudo graças à intervenção de um bispo que queria apagar os traços do passado romano e escrever um calendário mais cristão.
A cidade mais antiga de Portugal
Braga, considerada a cidade mais antiga de Portugal, tem uma história que começa na época romana, em 16 a.C., quando foi fundada pelos romanos com o nome de Bracara Augusta, em homenagem ao imperador César Augusto. Esta cidade, situada no noroeste da Península Ibérica, foi construída numa área que já era habitada pela tribo celta dos Brácaros, cujo nome acabou por inspirar o nome atual da cidade.
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