Para muitos portugueses, comprar um carro usado continua a ser, a forma mais acessível de adquirir um modelo recente ou de gama superior. No entanto, esta escolha envolve riscos adicionais, especialmente quando se trata de veículos importados. Embora o tema seja conhecido, raramente é explorado em profundidade: a importação facilita o acesso a uma maior oferta, mas também aumenta a probabilidade de falhas de informação e fraudes difíceis de identificar à primeira vista.
Segundo o Notícias ao Minuto, o peso das importações no mercado automóvel nacional é significativo e ajuda a contextualizar este problema. Muitas vezes, os veículos chegam a Portugal com um historial que não é totalmente acompanhado pelo carro, deixando lacunas nos registos de quilometragem, acidentes ou intervenções estruturais que podem passar despercebidas ao comprador.
Históricos que se perdem pelo caminho
De acordo com a carVertical, plataforma especializada em históricos de veículos, a maioria dos carros usados analisados em Portugal teve origem noutros países europeus. Entre setembro de 2024 e agosto de 2025, 3,6% dos veículos importados avaliados apresentavam indícios de manipulação da quilometragem, ligeiramente abaixo dos 4,1% registados em veículos nacionais. Contudo, estes números isolados podem ser enganadores.
O verdadeiro problema reside na informação que não segue o veículo. Quando um carro muda de país, parte do seu historial pode não ser incorporada nos registos nacionais. O vendedor pode nem estar ciente de danos anteriores ou de alterações significativas, enquanto um veículo sempre matriculado no mesmo país tende a ter documentação mais completa, acessível a autoridades e, em alguns casos, aos consumidores.
As diferenças nas leis entre Estados-membros da União Europeia complicam ainda mais a situação. A partilha sistemática de dados históricos entre países é limitada, aumentando os riscos para quem compra. O número de identificação do veículo, o VIN, exemplifica bem estas discrepâncias: nalguns países é considerado dado pessoal, restringindo a consulta de históricos.
Em Portugal, 61,5% dos carros usados verificados pela carVertical eram importados. Matas Buzelis, especialista, alerta que muitos destes veículos chegam após acidentes ou com quilometragem alterada, destacando que a origem geográfica não garante qualidade. Um carro vindo da Alemanha ou França pode apresentar problemas tão graves quanto qualquer outro, pois cada veículo tem um percurso próprio que nem sempre é transparente.
Desconfiança entre compradores
A perceção dos consumidores reflete esta realidade. Um estudo europeu da mesma entidade, com mais de 10 mil participantes, revela que quase metade não confia nos vendedores de carros usados. Os receios concentram-se em problemas ocultos, preocupando 75% dos inquiridos. Mais de um terço admite ter sido enganado numa compra anterior.
A maioria considera essencial ter acesso ao histórico completo antes de adquirir um veículo. Mais de 80% defende esse direito, e 61,5% apoia a partilha de dados não confidenciais entre países. Mais de 70% discorda que o VIN deva ser tratado como informação sensível, mostrando que existe uma procura por maior transparência num mercado marcado por desigualdade de informação.
Segundo o Notícias ao Minuto, num mercado em que os carros usados importados continuam a dominar, verificar cuidadosamente o historial de cada veículo é fundamental. Não elimina todos os riscos, mas pode ser decisivo para evitar surpresas dispendiosas.
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