Várias estradas em Portugal têm registado abatimentos ou colapsos nas últimas semanas, afetando tanto vias secundárias como principais, incluindo a autoestrada A1 na zona de Coimbra. O fenómeno tem sido associado ao mau tempo persistente e à acumulação extraordinária de água. Esta situação tem colocado à prova a capacidade das infraestruturas do país.
Precipitação excecional e solos saturados
O que se observa é uma sequência de tempestades extremas, com volumes de precipitação invulgares num espaço de poucas semanas. Estes eventos saturam os solos e aumentam significativamente o caudal dos rios e cursos de água.
Este excesso de água, por vezes acima do que as infraestruturas foram projetadas para suportar, provoca erosão e perda de sustentação dos solos. Como consequência, surgem deslizamentos e abatimentos em diferentes estradas do país.
De acordo com o Notícias ao Minuto, o professor do Instituto Superior Técnico Luís Picado dos Santos afirmou que não se trata de negligência na construção das estradas, mas de uma situação anómala. Sobre o colapso da A1 em Coimbra, explicou que a ação da água poderá ter sido prevista para eventos de cheias de 500 anos ou mesmo milenares. Isto significa que estatisticamente se verificam apenas uma vez a cada 500 ou 1000 anos.
O especialista atribuiu os danos à drenagem e à configuração do leito do rio. Sublinhou ainda que, mesmo com acompanhamento rigoroso, alguns colapsos podem ocorrer em contextos raríssimos.
Diferenças entre autoestradas e vias secundárias
Segundo Humberto Varum, presidente do Colégio de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros, citado pela mesma fonte, os eventos extremos recentes têm um impacto significativo nas infraestruturas, não se limitando apenas às estradas.
As autoestradas, projetadas com elevado rigor, têm resistido melhor. Já as vias secundárias, nacionais ou municipais, enfrentam maiores dificuldades devido a diferentes critérios de construção e manutenção.
Varum destacou ainda a importância de uma cultura de risco, alertando para a necessidade de considerar os impactos de futuras decisões perante fenómenos extremos.
Papel do solo e da topografia
O tipo de solo desempenha um papel crucial, explica a engenheira Jennifer Aguettant, da americana GeoEngineers. Em períodos de chuva intensa, os deslizamentos tendem a ocorrer em pontos onde a água se acumula. Isto pode acontecer em zonas baixas da estrada ou onde o escoamento passa por galerias pluviais.
A erosão em bueiros pode exceder a capacidade de drenagem, forçando a água a penetrar com turbulência e comprometendo a fundação da estrada. Solos compostos por materiais altamente erodíveis, como silte e areia, tornam estas infraestruturas mais vulneráveis. A topografia do terreno também pode favorecer o escoamento rápido da água e aumentar o risco de danos.
Subsidência e degradação do solo
O Departamento dos Transportes e o Met Office, em relatório de dezembro passado, alertam que a subsidência e a degradação dos solos podem enfraquecer a infraestrutura. Estes processos podem provocar fissuras, superfícies desniveladas e problemas de drenagem.
A expansão e contração do solo com a humidade, assim como a erosão de rochas solúveis, podem originar buracos e abatimentos repentinos. Estes fenómenos são particularmente frequentes durante chuvas fortes ou inundações.
Avaliação das infraestruturas
Perante esta situação, o Governo determinou que o Laboratório Nacional de Engenharia Civil faça uma avaliação técnica independente às infraestruturas da rede rodoviária e ferroviária nacional, mesmo na ausência de sinais visíveis de dano.
O objetivo é aferir as condições estruturais, de segurança e de operacionalidade, prevenindo futuros incidentes, segundo o Notícias ao Minuto.
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