Com o avanço tecnológico, os automóveis modernos estão equipados com funcionalidades cada vez mais sofisticadas, incluindo sistemas de condução parcialmente autónoma. Estes sistemas ajudam a manter a velocidade, a distância para o carro da frente ou a posição na faixa de rodagem, mas continuam a exigir atenção total do condutor, sendo que muitos abusam do sistema para tirar as mãos do volante.
Conforto digital, distrações reais
De acordo com o instituto norte-americano Insurance Institute for Highway Safety (IIHS), nos Estados Unidos, a utilização prolongada destes sistemas pode estar a alterar o comportamento dos utilizadores. Numa investigação conduzida com o Massachusetts Institute of Technology, foram analisados 29 condutores ao longo de um mês, com recurso ao sistema Pilot Assist da Volvo.
O estudo revelou que os condutores estavam significativamente mais propensos a realizar tarefas paralelas enquanto o sistema estava ativo, como usar o telemóvel ou comer. Esta tendência intensificou-se à medida que se sentiam mais confortáveis com o sistema. Segundo os investigadores, todos os participantes demonstraram comportamentos de risco, mas esses comportamentos aumentaram com o uso do assistente.
Desafiar os alertas de segurança
Outro estudo analisou o comportamento de 14 condutores a estrear o Autopilot da Tesla. O objetivo foi perceber até que ponto os avisos de distração do sistema influenciam o comportamento.
Ao longo de mais de 19 mil quilómetros, foram registados quase 4 mil alertas de atenção. Apenas 16 situações resultaram em travagens automáticas ou bloqueios, 12 delas com o mesmo condutor. A maioria dos alertas iniciais foi ignorada ou rapidamente “fintada”, com movimentos mínimos só para evitar o escalar do aviso.
Os dados mostram que muitos condutores aprendem a contornar o sistema sem realmente corrigirem o comportamento. Segundo os autores, há mesmo quem use os alertas como um “cronómetro”, permitindo momentos curtos de distração entre gestos rápidos para reativar o sistema.
Mudanças de comportamento, só em teoria
Alexandra Müller, investigadora do IIHS, comentou que os sistemas atuais são eficazes a gerar pequenas mudanças de comportamento, mas que essas alterações nem sempre se traduzem em maior segurança. “É preciso garantir que a atenção volta realmente à estrada”, defendeu.
David Harkey, presidente do instituto, alertou que as salvaguardas existentes não são suficientes. “Os condutores adaptam-se ao sistema: não para usá-lo melhor, mas para se libertarem da tarefa de conduzir”, explicou.
Um futuro mais seguro exige mais controlo
A conclusão é clara: enquanto os sistemas de condução parcial oferecem benefícios claros, também podem ser mal utilizados se não houver mecanismos mais robustos de monitorização.
Especialistas defendem que é essencial investir em tecnologia de deteção ocular e sensores de presença das mãos no volante, mas também em campanhas de sensibilização. Afinal, a tecnologia não substitui o bom senso, e distrair-se ao volante continua a ser uma das principais causas de acidentes.
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