A decisão da Universidade do Algarve de eliminar a carne de vaca da oferta alimentar da cantina no próximo ano letivo desencadeou uma reação formal da Associação Portuguesa dos Industriais de Carnes (APIC), que questiona os dados ambientais e nutricionais apresentados pela instituição e pede a revisão da medida.
De acordo com a Universidade do Algarve, a campanha “O Futuro Começa no Prato” pretende promover escolhas alimentares mais conscientes dentro da comunidade académica, associando alimentação, saúde e impacto ambiental. A iniciativa prevê uma redução da presença de alimentos de origem animal, com especial destaque para a carne de vaca, que será excluída da oferta.
No comunicado institucional, a universidade enquadra a medida como parte de uma estratégia mais ampla de sustentabilidade, ligada à redução da pressão sobre recursos naturais e emissões associadas aos sistemas alimentares.
Emissões e impacto ambiental em debate
A universidade refere que os sistemas alimentares representam entre 26% e 34% das emissões globais de gases com efeito de estufa, sublinhando ainda o peso da produção de carne de vaca nesse total. É neste ponto que surge uma das principais contestação da APIC.
Em carta enviada à Reitora, a associação escreve que “o valor de 50 kg de CO₂ equivalente por quilo de carne não é representativo da produção europeia nem da realidade portuguesa”, defendendo que os dados utilizados não refletem os sistemas produtivos da UE.
Carne, nutrientes e alternativas alimentares
A campanha da UAlg destaca ainda o papel dos chamados “alimentos azuis”, como peixe e bivalves, na substituição de fontes de proteína animal terrestre, apontando benefícios nutricionais e menor impacto ambiental.
No entanto, a APIC contrapõe que a equivalência nutricional apresentada é incompleta. No documento enviado à universidade, lê-se que “o ferro hemínico presente na carne bovina tem biodisponibilidade significativamente superior”, alertando para diferenças relevantes na absorção de nutrientes entre alimentos de origem distinta.
Dieta Mediterrânica e interpretação das recomendações
A universidade enquadra a iniciativa nos princípios da Dieta Mediterrânica, valorizando alimentos de base vegetal e marinha e de produção local. Contudo, a associação contesta essa leitura.
A APIC refere que a Roda da Alimentação Mediterrânica inclui carnes vermelhas no grupo alimentar respetivo, ainda que com consumo recomendado reduzido, e sustenta que a eliminação total “não corresponde às orientações oficiais da Direção-Geral da Saúde”.
Carta aberta e pedido de revisão
Na comunicação enviada à Reitora, a APIC afirma que a medida “substitui a diversificação alimentar por uma eliminação integral”, considerando que essa opção levanta dúvidas sobre o equilíbrio da abordagem adotada pela universidade. A associação solicita ainda que a decisão seja reavaliada e que os dados utilizados na fundamentação da campanha sejam revistos à luz de estudos europeus e nacionais.
A UAlg apoia a sua campanha em referências científicas, como a EAT-Lancet Commission, que defende transformações profundas nos sistemas alimentares globais. A APIC reconhece a relevância do debate, mas lembra que o relatório tem sido alvo de críticas na comunidade científica. No documento, a associação refere que existem “questões metodológicas e limitações na aplicabilidade global das recomendações”, defendendo uma leitura mais cautelosa das conclusões apresentadas.
No final da sua posição, a APIC propõe a abertura de um espaço de diálogo com a Universidade do Algarve, defendendo a participação de diferentes atores da cadeia alimentar. A associação manifesta disponibilidade para colaborar em iniciativas académicas e educativas, sublinhando a importância de integrar diferentes perspetivas na discussão sobre sustentabilidade alimentar.
Leia também: Polémica nos exames nacionais: “Professores de Geografia foram convocados para classificar provas de Francês”
















