Queixamo-nos do outro. Reclamamos que não nos compreende, que não nos escuta, que não reconhece aquilo que sentimos ou pensamos. Mas, enquanto fazemos essa acusação, talvez o outro esteja a formular exactamente a mesma queixa a nosso respeito. Ele também sente que não é ouvido, que a sua voz se perde, que as suas razões não encontram espaço na nossa atenção.
E então surge uma pergunta incómoda: será que o problema está apenas no outro?
Talvez não. Talvez o problema comece precisamente quando cada um de nós se habitua a escutar apenas a sua própria voz. Falamos para sermos compreendidos, mas raramente escutamos para compreender. Esperamos que o outro reconheça a nossa razão, mas nem sempre estamos dispostos a admitir que também podemos estar enganados. Queremos ser ouvidos, mas confundimos muitas vezes ouvir com simplesmente esperar pela nossa vez de falar.
Vivemos num tempo em que o “eu”ganhou uma dimensão quase absoluta. A afirmação pessoal, a opinião própria, o direito à diferença e à realização individual são conquistas importantes. O problema começa quando o “eu” deixa de reconhecer a existência do outro. Quando a liberdade se transforma em indiferença, a opinião em certeza absoluta e a afirmação pessoal em incapacidade de diálogo.
O outro passa, então, a ser visto não como alguém com quem podemos construir alguma coisa, mas como alguém que nos contraria, nos incomoda ou nos impede de ter razão.
E, no entanto, ninguém existe verdadeiramente sozinho. A nossa identidade constrói-se também através das relações que estabelecemos. Somos filhos, pais, amigos, colegas, vizinhos, cidadãos. Há sempre um “nós” a habitar o nosso “eu”. Ignorá-lo é empobrecer a própria experiência humana.
Escutar é, por isso, muito mais do que ouvir palavras. É aceitar, ainda que por instantes, sair do centro de nós próprios para tentar compreender o lugar onde o outro se encontra. Não significa concordar com tudo, nem abdicar das nossas convicções. Significa reconhecer que a verdade pode não estar inteiramente do nosso lado e que o outro, mesmo quando discorda de nós, merece ser escutado.
Talvez muitas das nossas discussões não aconteçam porque as pessoas não têm nada a dizer, mas precisamente porque todos têm demasiado para dizer e pouca disponibilidade para escutar. Cada um chega à conversa com a sua dor, a sua razão, a sua história e as suas expectativas. E, em vez de duas pessoas que procuram compreender-se, encontramos duas vozes que disputam o direito de ser ouvidas.
É assim que o diálogo se transforma em confronto.
Talvez seja necessário recuperar o valor da palavra “nós”. Não um “nós” que apague o indivíduo, mas um “nós” que lhe recorde que a vida humana é feita de relações. O “eu” precisa do “tu” para se reconhecer; e o “tu” precisa de um “eu” disposto a escutá-lo.
No fundo, talvez a pergunta mais importante não seja “Porque é que o outro não me ouve?”, mas antes “Tenho eu sabido ouvir o outro?”
Se cada um de nós começar por fazer essa pergunta a si próprio, alguma coisa poderá mudar. Porque, muitas vezes, aquilo que exigimos aos outros — compreensão, respeito, atenção, paciência — é exactamente aquilo que eles também esperam de nós.
E talvez seja aí que começa o verdadeiro encontro: no momento em que deixamos de querer apenas que a nossa voz seja ouvida e aprendemos, finalmente, a escutar a voz do outro.
Só então o “eu” deixa de ser uma fronteira e pode transformar-se em ponte para o “nós”.
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