O mar europeu tem registado comportamentos invulgares de algumas espécies, com impactos diretos na pesca local. O polvo é há muito uma das estrelas da cozinha portuguesa, presente nas mesas do norte ao sul do país em pratos como o polvo à lagareiro ou à moda do Algarve. No entanto, este animal, tão apreciado em Portugal, tornou-se um problema inesperado no Reino Unido, onde está a proliferar de forma preocupante nas águas costeiras.
A natureza é sensível a qualquer desequilíbrio e, quando uma espécie passa de presença regular a invasora, o impacto nos ecossistemas pode ser significativo. É precisamente o que está a acontecer nas costas britânicas, onde os polvos começaram a aparecer em grande número desde o passado mês de março, segundo o jornal The New York Times.
Em poucas semanas, pescadores de regiões como Devon e Cornualha deixaram de capturar os habituais mariscos e crustáceos para encontrarem as redes cheias de polvos. Aquilo que em Portugal é considerado uma iguaria está a ser visto no Reino Unido como uma verdadeira praga marinha.
As autoridades locais estimam que, nos primeiros seis meses deste ano, já tenham sido capturadas mais de 1.200 toneladas de polvo nas águas do sudoeste de Inglaterra. Em anos anteriores, o número rondava apenas as 140 toneladas no mesmo período.
Um impacto que ameaça o equilíbrio marinho
De acordo com a Marine Management Organisation, a pesca de marisco caiu cerca de 80% em algumas zonas devido à presença crescente de polvos, que se tornaram predadores dominantes e estão a alimentar-se de espécies como caranguejos e vieiras.
Os pescadores britânicos descrevem a situação como inédita. Muitos admitem que as capturas deixaram de ser rentáveis e que, mesmo quando conseguem vender o polvo, o desequilíbrio ecológico é evidente. Alguns, em localidades como Plymouth, decidiram adaptar os seus negócios e dedicar-se quase exclusivamente à pesca deste animal.
Ainda assim, a mudança não está isenta de riscos. A incerteza sobre a duração do fenómeno e a possibilidade de as populações de polvo se deslocarem para outras áreas deixam os pescadores apreensivos quanto ao futuro, refere a mesma fonte.
Causas sob investigação
Para tentar compreender o que está a acontecer, o Governo britânico encomendou estudos científicos que deverão revelar em breve se esta invasão é temporária ou o início de uma tendência mais duradoura.
Os investigadores estão a analisar possíveis causas, incluindo o aumento da temperatura da água, que em algumas zonas do Reino Unido subiu até quatro graus face ao valor médio registado nos últimos anos.
O Reino Unido, que há décadas era praticamente autossuficiente na pesca, depende agora em grande parte das importações de peixe, o que deixou as suas águas mais vulneráveis a alterações ecológicas, segundo aponta o The New York Times.
Uma iguaria em Portugal, um problema em Inglaterra
Enquanto os britânicos veem a chegada em massa do polvo como uma ameaça, em Portugal continua a ser um dos produtos mais valorizados da gastronomia. Nos restaurantes portugueses, é sinónimo de tradição e sabor, seja grelhado, assado ou cozido.
O polvo ocupa um lugar de destaque na cozinha portuguesa, sendo presença constante nas ementas de Natal, na Páscoa e nas festas populares de norte a sul do país. Mas o que é um prazer à mesa num país tornou-se um desafio ambiental noutro. O fenómeno mostra como o equilíbrio marinho é frágil e como pequenas alterações podem transformar um ingrediente apreciado, e símbolo da cozinha portuguesa, num problema para os ecossistemas.
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