Uma linha de estudo está a analisar a possibilidade de alguns tratamentos usados no combate ao cancro poderem ajudar a recuperar a pigmentação natural do cabelo, revertendo o cabelo grisalho, um efeito que começou por surgir como consequência secundária e que agora está a ser observado com mais atenção.
De acordo com o Jornal de Notícias, a hipótese ganhou força depois de um estudo realizado em 2017, que identificou 14 casos de doentes com cancro do pulmão submetidos a imunoterapia e que registaram um escurecimento do cabelo durante o tratamento.
Descoberta que nasceu por acaso
O fenómeno não fazia parte do objetivo inicial da investigação. O foco estava no tratamento do cancro, mas os médicos acabaram por detetar alterações na pigmentação capilar em alguns pacientes, algo que chamou a atenção da comunidade científica.
A partir daí, começaram a surgir novas perguntas. Poderá a imunoterapia estar a interferir com os mecanismos biológicos responsáveis pela cor do cabelo? A questão ficou em aberto e abriu uma nova frente de investigação.
Testes continuam nos Estados Unidos
Recentemente, a médica e investigadora Melissa Harris, da University of Alabama, retomou este caminho científico. A equipa tem estado a testar este modelo em animais e os primeiros resultados têm sido considerados relevantes.
Segundo o Today, citado pelo Jornal de Notícias, os efeitos observados nos testes mantêm a mesma lógica detetada em humanos anos antes, reforçando a hipótese de que existe uma ligação entre imunidade e pigmentação capilar.
Ainda sem aplicação prática
Apesar do interesse crescente, os especialistas insistem na necessidade de prudência. O médico Carlos Portinha, diretor clínico do grupo Insparya, admite que os dados são promissores, mas afasta qualquer ideia de solução imediata.
“Trata-se de uma linha de investigação cientificamente muito promissora, mas que ainda deve ser interpretada com bastante cautela”, explicou. O especialista sublinha que os casos observados até agora aconteceram em contextos muito específicos.
Papel das células que dão cor ao cabelo
A chave desta investigação poderá estar nas chamadas células-tronco melanocíticas, responsáveis pela produção de melanina, o pigmento que dá cor ao cabelo. Quando essas células perdem capacidade de regeneração, o cabelo tende a ficar branco.
Carlos Portinha refere que estes resultados ajudam a reforçar a importância dessas estruturas na compreensão do envelhecimento capilar. “O que se observa até agora são sinais interessantes em contexto muito específico”, aponta.
Ainda longe de uma solução para todos
Por agora, não existe qualquer tratamento validado para reverter cabelos brancos com base nesta tecnologia. Acrescenta a publicação que os próximos passos passam por mais testes e, sobretudo, por ensaios em humanos que permitam perceber segurança e eficácia.
“Se essa via continuar a demonstrar consistência em estudos futuros, poderá abrir portas a abordagens verdadeiramente inovadoras”, explicou o médico. Até lá, a ciência continua a observar com atenção um efeito secundário que pode acabar por abrir uma porta inesperada no estudo do envelhecimento.
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