A rotina de lavar roupa pode parecer segura, mas novas evidências indicam que um gesto tão comum como colocar fardas na máquina de lavar pode estar a contribuir para um problema de saúde pública silencioso e crescente: não eliminar bactérias resistentes.
Risco escondido nos eletrodomésticos domésticos
De acordo com um estudo da De Montfort University, no Reino Unido, metade das máquinas de lavar utilizadas em contexto doméstico pode não ser capaz de eliminar bactérias perigosas dos tecidos. A investigação avaliou a eficácia de seis modelos disponíveis no mercado na descontaminação de fardas de profissionais de saúde.
Segundo a mesma fonte, os testes focaram-se na bactéria Enterococcus faecium, resistente a antibióticos e potencialmente causadora de infeções graves, como endocardite e meningite neonatal. Os investigadores testaram diferentes ciclos, rápidos e normais, usando detergentes com e sem enzimas.
Temperaturas abaixo do recomendado
Conforme o estudo, nenhuma das máquinas atingiu os 60 °C recomendados pelo Serviço Nacional de Saúde britânico para a higienização eficaz de fardas, mesmo em ciclos normais.
Quatro modelos chegaram aos 56-58 °C e conseguiram eliminar 99,999% das bactérias. Mas uma das máquinas não ultrapassou os 20 °C e falhou por completo na descontaminação.
Durante os ciclos rápidos, três das seis máquinas não passaram dos 44 °C. Os resultados mostram que os ciclos curtos, frequentemente usados por comodidade, são insuficientes para erradicar microrganismos resistentes.
Biofilmes com bactérias perigosas
Além das falhas nos testes de descontaminação, os investigadores encontraram biofilmes bacterianos no interior de 12 máquinas.
As análises revelaram a presença de bactérias como Acinetobacter, Pseudomonas e Mycobacterium, associadas a doenças como pneumonia, infeções cutâneas e até tuberculose.
Segundo os investigadores, estes microrganismos não só resistem à lavagem como apresentam genes de resistência a antibióticos. A exposição prolongada a detergentes domésticos pode até reforçar essa resistência, tornando-os mais difíceis de eliminar.
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Fardas lavadas em casa podem ser um risco para todos
Os autores do estudo alertam que as fardas de profissionais de saúde, muitas vezes lavadas em casa, podem transportar bactérias letais para o ambiente doméstico. Com cerca de 22 milhões de profissionais na Europa a trabalhar em instituições de saúde, este risco assume proporções significativas.
A professora Katie Laird, responsável pela investigação, defende que confiar exclusivamente nas máquinas domésticas é insuficiente. O estudo refere que se deve “repensar a forma como lavamos a roupa dos profissionais de saúde” e implementar protocolos de higiene mais rigorosos.
Máquinas industriais nos hospitais podem ser solução
O grupo de investigadores propõe que as instituições de saúde disponibilizem lavandarias industriais próprias, com máquinas adequadas para atingir as temperaturas necessárias.
Segundo a mesma fonte, a responsabilidade da higienização não deve recair apenas nos trabalhadores, que nem sempre dispõem de meios adequados em casa.
Esta medida ajudaria a evitar a contaminação cruzada e proteger tanto os profissionais como as suas famílias.
Uma ameaça invisível e crescente
O estudo reforça o papel que práticas rotineiras, como lavar roupa, podem desempenhar na disseminação de bactérias resistentes a medicamentos.
Numa altura em que as infeções hospitalares continuam a ser uma das maiores preocupações da saúde pública, os dados agora revelados lançam um alerta que não deve ser ignorado.
Se não forem adotadas medidas eficazes, os autores temem que estas bactérias continuem a propagar-se de forma silenciosa, colocando em risco pacientes, profissionais e a comunidade em geral.
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