A reação da imprensa internacional às eleições presidenciais realizadas este domingo em Portugal destacou, de forma transversal, a subida da extrema-direita e o impacto político dos resultados no equilíbrio governativo. De Espanha à América Latina, os principais jornais sublinham a presença inédita de um candidato da direita radical na segunda volta e a “vitória inesperada” do socialista António José Seguro na primeira ronda.
No rescaldo da noite de eleições em Portugal, vários meios estrangeiros acompanharam de perto os resultados, apontando para um cenário político mais fragmentado e para uma campanha decisiva nas próximas semanas. A passagem à segunda volta de António José Seguro e de André Ventura foi interpretada como um sinal claro das transformações em curso no eleitorado português.
Os jornais sublinham que o crescimento da extrema-direita deixou de ser um fenómeno marginal e passou a assumir um peso estrutural no sistema político nacional, com possíveis consequências para a estabilidade do Governo, de acordo com o jornal especializado em economia ECO.
Leitura da imprensa espanhola
Em Espanha, o diário El País destacou o apuramento de Seguro “contra todos os prognósticos”, referindo que o candidato socialista regressou à linha da frente depois de uma década afastado da política ativa. O jornal descreve o duelo da segunda volta como um confronto direto entre socialismo moderado e direita radical.
Já o El Mundo enfatizou que o candidato apoiado pelo Partido Socialista beneficiará da concentração do voto contra a extrema-direita, mas não deixou de sublinhar que Portugal vive uma “viragem radical”, ao ter pela primeira vez um candidato populista na segunda volta das presidenciais.
O catalão La Vanguardia foi ainda mais longe, classificando os resultados como um “duro golpe” para o primeiro-ministro Luís Montenegro, sobretudo após o fraco desempenho de Luís Marques Mendes, apoiado pela coligação governamental.
França, Bélgica e Alemanha sublinham a extrema-direita
Em França, o Le Monde destacou que o país não precisava de uma segunda volta presidencial desde 1986, considerando que este novo cenário reflete diretamente a ascensão da extrema-direita em Portugal. O jornal salienta que, apesar de não ter vencido a primeira volta, Ventura atingiu um novo patamar eleitoral, de acordo com a fonte anteriormente citada.
O belga Le Soir assinalou que a extrema-direita não foi a grande vencedora da noite, mas reconheceu que André Ventura garantiu um lugar na segunda volta após uma disputa renhida pelo segundo lugar.
Na Alemanha, a revista Der Spiegel falou em “mais um sucesso” do líder do Chega, embora tenha sublinhado que o candidato terá dificuldades em conquistar o eleitorado moderado numa segunda ronda, lembrando que a maioria dos eleitores afirma não tencionar votar nele.
A análise dos meios internacionais de referência
O jornal americano Politico descreveu a vitória de António José Seguro como uma surpresa e destacou que André Ventura conseguiu quase um quarto dos votos, o que considera revelador do crescimento “extraordinário” do partido Chega. O jornal sublinhou ainda a descida significativa da abstenção, para o valor mais baixo em 20 anos.
A agência internacional Reuters enquadrou os resultados como um sinal de fragmentação política, referindo que esta será apenas a segunda vez, desde o 25 de Abril de 1974, que Portugal realiza uma segunda volta nas presidenciais. Para a agência, citada pela mesma fonte, este cenário espelha o desencanto com os partidos tradicionais.
América Latina acompanhou com atenção
Na Argentina, o La Nación falou numa vitória pessoal expressiva de António José Seguro, destacando a sua imagem de moderação e defesa dos serviços públicos. O jornal considerou que os resultados consolidam o Chega como principal força de oposição e colocam pressão acrescida sobre o Governo.
No Brasil, a Folha de S. Paulo escreveu que a provável vitória do candidato socialista poderá representar uma “virada épica”, recordando que, há poucos meses, Seguro aparecia muito abaixo nas sondagens iniciais para as eleições em Portugal.
Um cenário político em transformação
De forma quase unânime, a imprensa estrangeira concorda num ponto essencial: o sistema político português entrou numa nova fase. A presença da extrema-direita na segunda volta das presidenciais é vista como um marco histórico e um desafio direto ao modelo político que marcou o país nas últimas décadas, de acordo com o ECO.
Com a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa em jogo, os jornais internacionais consideram que a escolha dos eleitores portugueses nas próximas semanas poderá ter impacto não apenas interno, mas também na imagem de Portugal no contexto europeu.
















