Em tempos de eleições autárquicas, o exercício do voto transcende a simples adesão a um programa partidário. Por mais que um cidadão se reveja nas propostas inscritas num manifesto político, há uma dimensão que não pode ser ignorada: a confiança na pessoa que se propõe executá-lo. O voto, nesse sentido, não é apenas um endosso ideológico — é um pacto de confiança entre o eleitor e o eleito.
É por isso que os partidos, conscientes da importância da credibilidade pessoal, apresentam os currículos dos seus candidatos. Não o fazem apenas por formalidade, mas como tentativa de legitimar a escolha, de mostrar que aquele nome tem história, competência, e — espera-se — compromisso com o território e com os cidadãos que o elegem.

Jurista
É urgente repensar a ética do compromisso eleitoral. Talvez seja tempo de exigir mais do que promessas e currículos: exigir garantias de permanência, de dedicação ao território, de lealdade ao mandato
No entanto, o que acontece quando esse pacto é quebrado? Quando o eleito, mal assenta na cadeira do poder local, abandona o cargo para ocupar outro — seja na Assembleia da República, no Parlamento Europeu ou num conselho de administração de uma qualquer empresa pública? Ou quando, eleito por um partido, decide mudar de bandeira para se alinhar com quem detém mais influência na autarquia?
Não será isso uma forma de traição democrática?
O eleitor, que votou com esperança e convicção, vê-se desiludido. O seu voto, que deveria ser um instrumento de transformação local, é convertido em trampolim para ambições pessoais ou estratégias partidárias. A política, nesse cenário, deixa de ser serviço público e transforma-se em jogo de poder.
Este tipo de comportamento mina a confiança nas instituições, alimenta o cinismo político e afasta os cidadãos da participação democrática. Afinal, como confiar num sistema onde o compromisso assumido em campanha é tão facilmente descartado?
É urgente repensar a ética do compromisso eleitoral. Talvez seja tempo de exigir mais do que promessas e currículos: exigir garantias de permanência, de dedicação ao território, de lealdade ao mandato. Porque a democracia não se constrói apenas com votos — constrói-se com responsabilidade, coerência e respeito pelo eleitor.
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