Diz-se por cá que “quem espera desespera”, mas no Algarve, quem espera por cuidados hospitalares… pode bem morrer na sala de espera. Há mais de 20 anos que nos prometem um Hospital Central do Algarve como se fosse um prémio de lotaria que nunca mais sai. A diferença é que na lotaria, pelo menos, há a ilusão de sorte. Aqui, já não há nem isso. Há apenas incompetência, promessas recicladas e cinismo institucional.
Quantas campanhas eleitorais já usaram o hospital como trunfo e chavão de ouro que após o dia das eleições deixa de reluzir de forma instantânea? Quantas cerimónias da primeira pedra, é que vamos continuar a suportar? Já não estamos no domínio da paciência, estamos no da negligência continuada, disfarçada de burocracia.
“Emergência? Volte amanhã.”
Vamos aos factos. Em 2022, uma grávida de 8 meses em Tavira teve de ser encaminhada de ambulância até Faro, uma viagem de mais de 40 minutos, porque o serviço local estava encerrado por falta de obstetras. Em plena época alta, com o Algarve a rebentar de turistas e calor, as urgências de Portimão e Lagos colapsam com frequência. A 9 de agosto de 2023, a urgência de ginecologia-obstetrícia de Portimão encerrou por completo durante 24 horas. A resposta oficial? “Motivos de gestão”. Pois, claro. Os mesmos motivos que nos têm a viver numa espécie de terceiro mundo clínico ao sol.
E como esquecer o escândalo dos internamentos nos corredores do Hospital de Faro, com doentes em macas entre as paredes como se estivessem num parque de estacionamento humano? Reportado várias vezes entre 2020 e 2024, ignorado pleos decisores políticos com o mesmo profissionalismo com que se varre areia para debaixo do tapete.
Entre o caos e a coragem: o heroísmo dos profissionais
Mas se ainda há quem seja atendido, operado, socorrido, é graças ao heroísmo diário dos médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras, auxiliares e técnicos de saúde. São eles e elas que, apesar da escassez de meios, da exaustão física e mental e da ausência de um sistema digno, continuam a salvar vidas com a coragem de quem resiste dentro de um navio a afundar. A esses, presto o meu mais profundo respeito. Não são eles o problema. São, pelo contrário, a última linha de dignidade de um sistema que já devia ter sido reconstruído há muito.
E então? Vamos continuar a sorrir para a foto da maquete?
Enquanto algarvios e algarvias, exigimos a construção imediata e transparente do Hospital Central do Algarve. E que não venham com promessas para 2030, nem com a lenga-lenga dos fundos europeus ou dos estudos intermináveis. O impacto está feito: estamos a morrer à espera.
Hoje [dia 27 de junho] foi aprovada por unanimidade, um conjunto de iniciativas para que se avance com a construção do novo Hospital e do centro Oncológico do Sul, por parte do PAN, que apoia publicamente a petição pública “ Novo hospital Central já!”, portanto se todos foram favoráveis, veremos agora como o atual governo procede.
Basta de discursos politicamente corretos. Basta de “em breve”. Basta de adiar o que devia ter começado no século passado. O Algarve não é colónia de verão. É uma região de pessoas reais, que pagam impostos, que têm filhos, que envelhecem , e que, se adoecem, deviam ter direito ao mínimo: um hospital central que funcione e que permita a renovação tão necessária dos restantes, na região.
Sr. Primeiro-Ministro, Sras. Ministras, Exmos. Diretores e diretoras disto e daquilo: deixem-se de cerimónias. O Algarve não é um folheto de turismo, é uma região em estado de emergência hospitalar.
E já agora: se a primeira pedra estiver perdida, digam. Nós próprios vamos buscá-la. Para atirá-la onde for preciso.
Leia também: As nossas crianças estão a ser esquecidas. E ninguém quer falar sobre isso | Por Saúl Rosa
















