Em 2013, a investigadora Catarina Gomes partiu para a Guiné-Bissau há procura de abrir caminho para conhecer a dimensão de um fenómeno tabu: existiam ou não os filhos de militares portugueses deixados em África, matéria praticamente inexistente até mesmo nas redes sociais dos antigos combatentes. Como a investigadora escreveu, o que aconteceu foi avassalador. “Um passa-palavra descontrolado colocou ao nosso dispor uma torrente de vidas que era impossível recolher no tempo que tínhamos. Alguns filhos tinham de esperar horas para os ouvirmos, as suas histórias eram mensagens que nunca tinham conseguido enviar aos pais. Os primeiros dias emocionaram-me, mas houve momentos em que me senti como se estivesse num guichê de repartição pública, a preencher folhas e folhas de relatos que, a certa altura, se repetiam no essencial – eu fazia ali as vezes de Portugal.”
Pela dignidade e emoção postas, pelo desvelar de histórias dos filhos africanos que militares portugueses tiveram com mulheres guineenses, pelo próprio sucesso da série documental Filhos de Tuga (na RTP 1), e que foi editado em 2016 tem vindo a ser complementado com novas pesquisas, e estamos agora na terceira edição revista e aumentada, Tinta da China, 2026, o título mantém-se, Furriel não é nome de Pai.
O leitor será cativado do início ao fim, não ficará indiferente à saga de Fernando Hedgar da Silva, que deu vida a uma associação de filhos de tuga, Óscar Albuquerque chegará ao contacto com o pai, este ficará indiferente, mas a tia Filomena assume o comando das operações para ajudar os seus sobrinhos em permanente penúria, e não menos tocante será a história de Rosa Monteiro que moveu o céu e a terra para ter um dossiê da sua família portuguesa, socorrendo-se das redes sociais com grande sucesso. Refletindo sobre o direito à identidade, escreve Catarina Gomes:
“Há, do lado dos homens-pais, um direito que contende com o direito que qualquer filho tem de conhecer quem o gerou: o direito à privacidade. Muitos vivem paralisados pelo receio de que as mulheres lhes descubram esta descendência e os abandonem na reta final das suas vidas, quando estão mais débeis. O outro medo é de que estes filhos, que lhes são estranhos, queiram reclamar os seus bens, ser herdeiros.

Nunca há apenas vítimas. Também conheci filhos oportunistas, que querem capitalizar o seu passado, que não conhecendo as suas origens com rigor as atribuem a qualquer um. Isso, em vez de aproximar os homens desta história, afasta-os. Mas são casos isolados e isso não anula o essencial da questão: estes filhos que foram deixados, não filhos de portugueses, na esmagadora maioria dos casos não têm testes genéticos nem fotos para o provar, mas têm uma vida inteira de discriminação como prova.”
Na verdade, estes filhos de tuga são discriminados, rejeitados, tratados como o resto do colonialismo. Fernando Hedgar da Silva lembra os fuzilamentos feitos pelo PAIGC daqueles que tinham colaborado com os portugueses, a população era obrigada a assistir. Os filhos de tuga tornaram-se socialmente inimigos íntimos. A autora recolheu histórias de quem em crianças era apedrejado, execrado, desempenhando um papel menor no conjunto familiar; e as mães de filhos de tuga procuraram todos os disfarces para que os filhos não fossem maltratados: “Em Angola, vários filhos de militares portugueses contaram que as suas mães lhes pintavam as peles com carvão na tentativa desesperada de lhes esconder a cor mais clara – num tempo em que a ordem no país era para matar todos os filhos de militares portugueses.” Acontece que muitos destes pais chegaram a pegar nos filhos ao colo, a levá-los à pia batismal, a fotografá-los, foram pais que tocaram nos seus filhos, alguns deles pretenderam mesmo trazê-los, finda a comissão militar, a família africana, muitas vezes, recusou a viagem. Perdeu-se muita documentação, com o terror de ter tido ligações com os portugueses, queimaram-se papéis, destruíram-se moradas.
A história de Óscar Albuquerque comove-nos em profundidade. Lançou-se a fundo à procura do pai, depois de muita canseira conseguiu o que parecia impossível: a morada de casa do pai na freguesia dos Anjos, em Lisboa, e o seu número de telefone começado por 21. Escreveu-lhe, nunca obteve resposta. Passado mais de um ano encheu-se de coragem, telefonou-lhe, foi mal recebido. Por portas e travessas entra em cena a tia Filomena que chamará a si, e que quis mesmo recorrer ao tira-teimas do ADN, escreveu-lhe: “Caro Óscar, sou a Filomena, irmã do teu pai. Felizmente consegui saber se ti. Sei da tua história desde que o meu irmão veio da tropa. Tua mãe Maimuna estava grávida quando ele veio. Meus pais, que infelizmente já partiram, falavam sempre de ti e diziam ao Manuel para te procurar. Quando vi a tua reportagem falei com o meu irmão, e ele diz, e bem, que a data do teu nascimento não pode ser 1972, pois ele esteve aí em 1967-68. Contudo, há uma maneira de saber, há um exame que se pode fazer cá, que se chama ADN.” Mas não era tão simples como Filomena imaginara, Óscar tinha de vir em pessoa. Tia e sobrinho irão ligar-se, o desvelo da tia irá tocar-nos, ainda por cima irá descobrir-se que é mesmo filho do irmão, no Facebook Filomena exibe com espalhafato fotografias da família com o sobrinho. Veio depois a tortura burocrática relacionada com o perfilhamento, o tempo passa e Óscar continua a ser um estrangeiro na terra do pai.
Asseguro ao leitor que há também muita emoção com a história da mana Emília e os gémeos Celestina e Celestino, desta feita está envolvido um oficial, Celestino escrevia ao pai, este não respondia, mas um dia uma das filhas, Emília, apanhou uma carta, começou o seu envolvimento, será tenaz para ajudar os manos guineenses. O pai visita a casa de Emília, é impossível que não repare naquelas roupas infantis espalhadas pela casa, sabe perfeitamente que não há crianças pequenas na família, cumpre o que o pai lhe pediu. “Não falo mais disso.”
Leitura imperdível. Catarina Gomes partiu para África levando na mala este tabu dos filhos da guerra, e dá-nos esta poderosa narrativa de gente que busca uma identidade perdida, sem que o próprio Estado português reconheça a dimensão desta realidade.
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