Portugal, depois de um inicial 25 de Abril feito de esperança, deixou, entretanto, de ser um país. É um jantar de confraternização, onde o prato principal é o compadrio e a sobremesa a condecoração mútua. Um território geográfico, sim, com fronteiras, bandeira e hino — mas sem projeto, sem desígnio, sem sequer um esboço de vontade coletiva que ultrapasse o círculo dos conhecidos. Aqui, não se governa: gere-se o grupo de «amigos».
O mérito é olhado com desconfiança. O espírito crítico, esse incómodo hábito de pensar, é rapidamente rotulado como insolência, falta de educação ou — pior ainda — radicalismo. O conhecimento serve para legitimar o poder, não para o desafiar. Os doutores multiplicam-se, mas os pensadores escasseiam. O saber é ornamental e o saber fazer é quase uma ofensa.

Jurista
Portugal não é um país. É um clube. E como em todo o bom clube, o que importa não é o que se faz, mas quem se conhece
Como bons herdeiros de um absolutismo mal resolvido, preferimos a reverência à irreverência, a bajulação à argumentação. A subserviência é não só aceite, como promovida: há prémios, cargos e palmadinhas nas costas para quem souber curvar-se com elegância. O bom português é o que se cala, acena e espera que o primo do cunhado do amigo do sogro o recomende.
Somos, pois, uma federação de “amigos” — uns grandes, outros pequenos, todos com cartão-de-visita e acesso ao salão nobre. Os que trabalham, estudam, pensam e pagam impostos, são mantidos à distância, como se fossem um parente incómodo que só aparece para pedir favores. Os «amigos» vivem de inaugurações, selfies e discursos vagos sobre inovação, enquanto distribuem medalhas como quem distribui rebuçados numa festa de aniversário.
Portugal não é um país. É um clube. E como em todo o bom clube, o que importa não é o que se faz, mas quem se conhece. O resto — justiça social, mobilidade, educação, cultura — são temas para seminários, não para decisões.
Portugal não é um país. É uma cerimónia permanente, uma romaria de elogios mútuos, um lugar onde o futuro é sempre adiado, porque o presente está ocupado a garantir que os amigos continuam amigos — nomeadamente com «contratos por ajuste direto» e «nomeações em regime de substituição» – enquanto os outros continuam longe.
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