Folia e descompressão são indispensáveis, agora que os tambores marciais voltam a ecoar pela Europa, recordando-nos que a distância entre civilização e barbárie é apenas uma fina película — tão frágil quanto a moral de um desenho animado dos Flintstones.
Sob o eco dessa pré-história revivida, o nosso parlamento, sempre fiel ao ruído e à dispersão, agita-se em indignações populistas contra os cortes na saúde. Cortes que reduzem em 10,3% a aquisição de bens e serviços do SNS, mas que, segundo alguns, transmitem “uma mensagem exigente aos gestores”. Enfim, alguém reconhece o mérito de quem administra as nossas doenças com o zelo de quem guarda a carteira — fazendo como se estivesse num local cheio de carteiristas.
Celebramos, entretanto, o sucesso anunciado de um plano de emergência de 60 dias. Ele promete consultas mais céleres, telemedicina como alternativa moderna e um enfermeiro e médico de família para todos. O problema é que os doentes, ingratos como sempre, insistem em permanecer vivos o suficiente para testar a robustez do sistema. Num país onde o idadismo é ofício corrente, chega a ser desconcertante que os idosos ainda se deem ao desplante de existir.
Mas, como diz o adágio, “partos apressados dão filhos tortos”, e talvez por isso a senhora da saúde prefira o compasso da prudência. Há nela uma serenidade que beira a imobilidade — uma calma tão meticulosa que parece meditada em retiro governamental. Quando surge em público, o ambiente muda: tudo abranda, tudo se acomoda. A sua tranquilidade é contagiante, sobretudo para os que esperam horas nas urgências.
O seu já célebre “não, não me demito” é mais do que um gesto político — é uma filosofia de resistência, uma recusa poética à transitoriedade. O SNS inspira governantes, doentes e cidadãos, todos fiéis ao mesmo mito: o de que é possível curar a saúde pública com comunicados e planos quinzenais.
Ainda assim, não faltam vozes a pedir-lhe a cabeça, por urgências encerradas ou partos não assistidos — como se a senhora fosse ministra da fertilidade ou gestora de contracetivos. O país, esse, continua fértil apenas em indignações episódicas.
Quanto aos bombeiros, agora também polivalentes obstetras, é de reconhecer a sua meritória multifuncionalidade: já não apagam só incêndios, também apaziguam as dores de um sistema em combustão, salvando gatos e, se necessário, substituindo anestesistas com uma mangueira e boa vontade. É natural, portanto, que se revejam os seus honorários — afinal, salvar um parto é quase tão meritório quanto salvar uma floresta.
Entretanto, um punhado de deputados, sempre em dia com a falta de lucidez, acusa a Sr.ª “Ronalda da Saúde” de falta de transparência orçamental. Não percebem que a poupança é, antes de tudo, uma questão de engenho: trocar agulhas por modelos de calibre mais fino pode poupar milhões — e, de caminho, reduzir o sofrimento dos pacientes. Ignoram que a poupança pode vir de coisas simples: agulhas mais finas, luvas reutilizáveis, pensos rápidos recicláveis. Além de poupar dinheiro, aquelas agulhas reduzem o trauma aos traseiros nacionais.
O SNS podia até inspirar-se nas Finanças e atribuir bónus a quem economize material: 5% de comissão a cada administrador que consiga poupar em álcool, gaze ou clorexidina. Nada mais justo — a meritocracia é linda quando aplicada ao sofrimento alheio.
Há quem chame a isso eficiência; outros, apenas criatividade fiscal aplicada à medicina.
Seria justo, até, instituir prémios de desempenho: um bónus por cada litro de álcool não gasto, por cada penso rápido poupado, por cada seringa que sobrevive ao inventário. Afinal, o mérito, quando bem medido, também é terapêutico.
Na triagem de Manchester, poder-se-iam substituir as pulseiras plásticas por fitas de tecido, sustentáveis e simbólicas — um arco-íris de espera civilizada, onde cada cor traduz não a urgência da dor, mas a paciência da esperança.
E se há chips cerebrais em falta, que venham os de fabrico chinês — mais económicos, mais compatíveis com as nossas finanças, e, dizem, de reinício fácil.
A certa altura, um deputado, esquecido de que o século XXI já começou, terá dito à ministra “vai para a tua terra”, a Guiné-Bissau. Um lapso infeliz — como se o local de nascimento fosse ainda critério de competência, como se alguém escolhesse o país de nascimento num formulário da maternidade. Há quem confunda xenofobia com zelo patriótico; outros chamam-lhe apenas ignorância com sotaque parlamentar.
Uma nação moderna não se mede pela cor do passaporte, mas pela qualidade dos memes que gera.
No fim, o que o povo quer é simples: que o SNS abra as portas pela manhã, que o atendimento venha acompanhado de uma barrita de cereais e um café morno, e que a espera, inevitável, se torne um ritual de pertença. Exige-se que o tempo de espera tenha alma, e que as filas se tornem conviviais tertúlias de resistência, onde se trocam receitas de chás e insultos à governação.
E, enquanto isso, os timoneiros do sistema brindarão, em cerimónias discretas, à saúde — à deles, bem entendido — e à esperança de que o país, um dia, descubra que a ironia, quando bem dosada, também cura.
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