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Cultura, Edição Papel, Opinião

Paulina Chiziane, a primeira escritora africana a ganhar o Prémio Camões

LETRAS & LEITURAS: Artigo de Paulo Serra publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul de janeiro

09:00 14 Janeiro, 2022 11:28 16 Janeiro, 2022
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Paulo Serra, doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e Investigador do CLEPUL

A obra de Paulina Chiziane, publicada pela Editorial Caminho, relançada em 2016 com novas edições e capas, volta às livrarias agora com o selo do Prémio Camões 2021. A primeira mulher moçambicana a publicar um romance foi também a primeira autora-mulher africana a ganhar o Prémio Camões, nesta 33.ª edição.

Depois de ter publicado contos em várias publicações (jornais e revistas) da militância, na FRELIMO, Balada de Amor ao Vento, publicado em 1990 em Moçambique, foi o primeiro romance da autora. A propósito desta obra a autora afirmou: «Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance, mas eu afirmo: sou contadora de estórias e não romancista. Escrevo livros com muitas estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte.»

Paulina Chiziane nasceu em Manjacaze, na província de Gaza, Moçambique, em 1955. Passou a infância nos subúrbios de Maputo. A aprendizagem da língua portuguesa dá-se na escola de uma missão católica. Frequentou estudos superiores de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane, sem chegar a concluir o curso. Venceu em 2003 o Prémio José Craveirinha, com Niketche – Uma história de poligamia. As suas obras encontram-se traduzidas na Alemanha, Espanha, E.U.A., França e Itália.

Ressalve-se ainda, em jeito de nota de rodapé, que Zeferino Coelho, editor da Caminho (Grupo LeYa) foi recentemente distinguido com o Prémio Vasco Graça Moura de Cidadania Cultural 2022, pela sua actividade de mais de 50 anos em prol da literatura e da cultura portuguesas.

Balada de Amor ao Vento

A escrita de Paulina Chiziane é profundamente lírica, como se escrevesse versos que formam um rosário de histórias, uma escrita intimista e confessional, entretecida de oralidade, nomeadamente no vocabulário local, versos e no recurso recorrente a provérbios e aforismos: «o lar é um pilão e a mulher um cereal» (p. 50). Balada de Amor ao Vento é narrado justamente na primeira pessoa, pela voz de uma mulher, já em idade avançada, «envelhecida», a viver numa «Mafalala de casas tristes, paraíso de miséria» (p. 11), no fim da sua jornada, a rememorar a sua infância, e o seu rio Save. Esta mulher podia bem ser a própria autora, que tem preferido viver sempre nos arredores de Maputo. (A Mafalala era um bairro pobre na orla da capital moçambicana, entretanto tornado urbano com o crescimento da cidade de Maputo. A Mafalala é também um dos bairros mais famosos de Moçambique, associado à emergência da identidade moçambicana, foco de resistência cultural e política à administração colonial portuguesa. Foi aí que nasceram ou viveram figuras moçambicanas de relevo como o poeta José Craveirinha, o jogador Eusébio, a poetisa Noémia de Sousa, ou Samora Machel.)

“Balada de Amor ao Vento” foi publicado em 1990 em Moçambique

Sarnau, narradora e protagonista da história, recua à sua adolescência, aos 13 anos de idade, primavera da vida em que conheceu também o seu primeiro e grande amor, Mwando, um jovem que estuda num colégio católico e que deita tudo a perder por amor: «Como o Adão no Paraíso, a voz da serpente sugeriu-lhe a maçã, que lhe arrancou brutalmente a venda de todos mistérios.» (p. 19)

As cerca de 172 páginas do romance narram, com intervalos, as desventuras de Sarnau e Mwando, cujo amor vive nas vicissitudes do vento, entre uniões e retrocessos. Sarnau será lobolada (o lobolo é o dote entregue pelo noivo e família como pagamento pela noiva) em trinta e seis vacas, coisa que nunca aconteceu desde os tempos dos antepassados, tornando-se a primeira esposa do filho do rei. Numa cultura onde os homens, quando não são cristãos, podem ter várias mulheres, Sarnau terá de viver o seu amor por Mwando em segredo, correndo perigo de vida.

É também na história deste amor em conflito que se denuncia, subtilmente, um mundo em conflito, culturalmente dividido. Entre uma cultura polígama e uma sociedade onde o cristianismo foi imposto. Entre o comportamento próprio de um homem e os deveres inerentes à condição de ser mulher: «a vida da mulher é sempre dura» (p. 158). Veja-se como, quando Mwando se casa com Sumbi, tão bela quanto preguiçosa, exímia em esquivar-se aos deveres de uma boa esposa, e não vendo ele mal em agradar à sua mulher, as gentes da aldeia temem que «aquele génio do feitiço» possa «contaminar a aldeia com aquele modo de vida» (p. 68-69).

Na prosa de Chiziane conflui a herança cultural de um povo, aliando animismo, crenças, maus presságios, oralidade e identidade.

Denúncia do colonialismo

O tempo da narrativa, além de intervalado, é indefinido. No entanto, quando Mwando é depois enviado para Angola, «terra de degredo, da cana, do cacau e do café» (p. 134), podemos perceber como a acção se situa ainda durante o colonialismo: «Às mulheres foram destinados os campos de tabaco, tarefa ligeira apenas na aparência. Os homens foram enviados para os canaviais e os mais fortes para a destronca e abertura de novos campos.» (p. 139)

Na natureza fera percebe-se agora a mão do homem, com os cafezeiros «alinhados de uma forma artística», onde «a floresta medonha cedeu lugar a uma roça de um verde-bonito, verde-sangue, verde-dinheiro, regado com o suor dos condenados» (p. 143).

Neste passo da narrativa, a denúncia é virulenta, mas contida, sublinhado os dotes narrativos da romancista: «As mãos negras construíam beleza, construíam riqueza. Lá no alto erguiam-se palacetes brancos com tetos vermelhos» (p. 143). Ou quando se lê: «Nos últimos anos nasceram novas roças cujas plantas são cruzes toscas pintadas de branco em terra fertilizada de carne humana. A fome, a doença e a tortura eram os viveiros dessas plantas.» (p. 145)

Não escapa a essa crítica o papel do negro que assume ele próprio as mesmas atitudes de opressão e domínio do colonizador branco: «Os pretos gritavam para outros pretos como se pretos não fossem. O escravo liberto torna-se tirano.» (p. 137)

No capítulo 18, e antepenúltimo, chegamos a um tempo de modernidade, e possivelmente de independência, a condizer com o regresso de Mwando a Moçambique e com a vida de Sarnau agora como mulher autónoma, sozinha, a vender produtos da terra no mercado da Mafalala para sobreviver. Sarnau pode inclusivamente ser entendida como alegoria de Moçambique, mãe-terra, ainda a acordar para as mudanças que os tempos trouxeram: «Estas manhãs das cidades com ruídos de carros, gritos de máquinas e de homens e todo este buliço de pessoas em formigueiro transtornam-me» (p. 153). Como se Sarnau fosse essa terra a desejar poder recuar no tempo, até à altura em que era ainda natureza intocada pela civilização, pela técnica e pela máquina: «Prefiro as manhãs suaves da minha terra com a melodia alegre dos pássaros, levantando voo em gestos de bênção à terra, aos deuses e aos homens.» (p. 153)

Poderão os amantes, dezasseis anos depois, ainda ter uma nova oportunidade no amor? Ou limitar-se-ão a ficar «frente a frente, fazendo o trágico balanço e uma existência miserável» (p. 165)?

Ventos do Apocalipse

A fazer jus às palavras da autora, quando afirma ser «contadora de estórias e não romancista», Ventos do Apocalipse enquadra-se mais nesse mosaico a compor a história de um povo, em que a vida de uma personagem reflecte toda uma comunidade, em que a vida de cada um é sempre em constelação com a dos familiares, vizinhos, congéneres.

Ventos do Apocalipse” é o segundo romance da autora

Ventos do Apocalipse, publicado originalmente em 1993, e pela Caminho em 1999, é o segundo romance da autora. O Prólogo é justamente formado por pequenos fragmentos de histórias. Esta narrativa impõe um desafio maior ao leitor (ao contrário da prosa escorreita e ligeira do primeiro romance), até por não ter a mesma linearidade narrativa. Uma aldeia repousa tranquila envolta no manto de escuridão da noite quando surgem pelos ares quatro cavaleiros. Estes cavaleiros do Apocalipse são afinal quatro helicópteros. Passaram-se os «ventos da independência» (p. 52). Sopram «ventos de novas mudanças» em que tudo voltará, afinal, «a ser como antes». Pressentem-se, portanto, os tempos da guerra civil, a deitar por terra a promessa conquistada com a independência: «A desgraça penetrou em Mananga. Já se ouvem rumores da guerra em Macácua» (p. 61).

Este é o cenário dantesco que encontramos nas páginas de Ventos do Apocalipse, onde o lirismo da prosa e o horror das imagens andam a par e passo, dando conta de como a guerra mais aberrante é a deflagrada entre dois povos afinal irmãos.

(continua na próxima edição)

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