Tratado de vigaristas , de Colson Whitehead, com tradução de Nuno Quintas, publicado pela Alfaguara, retoma a ação de Ao ritmo do Harlem alguns anos depois. Passamos de 1964 para a década de 70, quando Ray, depois de um breve interregno, é forçado a sair da reforma e retomar um papel parcialmente ativo no submundo do crime do Harlem. Considerado um dos melhores livros do ano pelo The New York Times , este é o mais recente romance de um dos mais premiados escritores da atualidade, voz literária fundamental na literatura negra que se tem dedicado a recontar a história e a cultura negra norte-americana ao longo dos últimos séculos.
“O carro não era o mesmo, mas tinha a certeza de já ter tido a sua cota-parte de sarilhos. Acumulava violência como quilometragem. Controlamos o quilometragem por ser importante: não perdiam era tempo a contar os negros que tinham desancado.” (pág. 75)
Se no volume anterior, confesso, senti alguma dificuldade a certa altura pois embora fosse interessante a história ganhava contornos retorcidos e apenas por me desinteressar um pouco, esta narrativa prende-nos e delicia-nos, numa prosa escorreita, satírica, divertida, com histórias, por vezes rocambolescas, de crimes e castigos, episódios tragicómicos, pequenas vinganças, negócios obscuros, grandes esquemas, disfarces e traições.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
Um memorial e um retrato fascinante do mundo fervilhante do bairro do Harlem, de um lugar e de uma época desaparecidos
Na alucinante Nova Iorque dos anos 70, os Jackson 5 (mas eles não eram 6?) atraem multidões de jovens raparigas em delírio. Sente-se já a vibração da contracultura, a alimentação uma nova geração e a destruição de alguns preconceitos. Depois de 4 anos de uma vida honesta, Ray é novamente empurrado para o mundo do crime por um agente policial num périplo de coleta de dinheiro, ou seja, na “voltinha dos envelopes” (p. 75), que rapidamente descamba.
“Metade dos bófias de Nova Iorque foram primeiros gatunos e polícias depois. Numa cidade assim, convém-nos aceitar a porra das contradições.” (pág. 150)
Vive-se um Verão tórrido. Os arranhões-céus continuam a empilhar-se. Polícias brancas agredirem um negro na via pública não é algo de fazer parar o trânsito. Na grande cidade a taxa de homicídios quadruplicou relativamente à década anterior, como claramente e os roubos de carros e os assaltos atingiram registros históricos. O Harlem é diferente, segundo os seus próprios habitantes. “Nos tempos que correm, acanalha não tinha código e tinha menos classe.” (pág. 81)

Destaco a qualidade da tradução, em que Nuno Quintas (da Oficina Caixa-alta) consegue (como já tinha feito em Um lugar para Mungo , de Douglas Stuart) verter para o português o registo coloquial do original, cheio de ironia e gíria, mantendo uma prosa fluída, rápida, divertida:
“Iniciava-se outro sufocante verão nova-iorquino. O ar condicionado por cima da entrada da loja tossia e arquejava feito camioneta urbana, mas fazia o que lhe competia.” (pág. 27)
Um memorial e um retrato fascinante do mundo fervilhante do bairro do Harlem, de um lugar e de uma época desaparecidos, denúncia de um país fraturado, numa saga que se inclui contemplar ainda um terceiro volume. Um livro que nos fala de homens duros como xisto, feito da mesma matéria que a cidade nas suas fundações, e que por isso sobrevivem às desgraças e injustiças que sobre eles se abatem, devida ou indevidamente, até porque na verdade brincam com o fogo.
Neste volume Ray Carney subsume-se numa boa parte da narrativa (a segunda parte inteira) e dá lugar a um outro personagem que toma a frente: Pepper. Mas o verdadeiro protagonista aqui é o Harlem, tomado como o coração da sempiterna e mutável cidade de Nova Iorque.
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