A intriga situa-se em 1840, na Madeira, e trata do pouco conhecido conflito religioso que ali deflagrou entre católicos e protestantes.
João Alves e a mãe estão encarcerados pois ela recusa-se a negar que fala com Deus.
Uma vez libertado, o rapaz procura o mestre botânico, para que lhe dê um remédio que cure as enxaquecas da mãe. Augusto Freitas vive rodeado de plantas (medicinais e tintureiras) e conta à filha adotiva, Maria, que os pais vivem no fundo do mar; escudando-a assim da verdade, pois a mãe foi executada por ser uma tecelã de anjos (afogava recém-nascidos indesejados). Um artifício bondoso, intrínseco à melhor ficção, que envolve a menina em fantasia e naquela “alegre melancolia que era a fonte de calor da alma portuguesa”. É esse o sentimento de João Alves ao abraçá-la em despedida.

Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)
A uma narrativa sólida, documentada, inspirada em factos, alia-se uma prosa pontuada por magia, eivada de profundo lirismo
Ao emigrar para os EUA, John é professor de linguagem gestual e reencontra Maria Freitas. Reacende-se um amor entre hereges, com a Guerra Civil como pano de fundo – e a Guerra é apenas uma das várias cisões desta relação, e que pode também remeter para o enigmático título.
Outro aspeto histórico cativante é o desvelar de como a costa oeste e leste não foram os únicos pontos de fixação dos portugueses na América. O verdadeiro John Alves integrou um contingente de protestantes madeirenses que emigraram para o Illinois.

A uma narrativa sólida, documentada, inspirada em factos, alia-se uma prosa pontuada por magia, eivada de profundo lirismo. Lirismo que só se preserva, como o sal, com uma excelente tradução.
Filha de pai açoriano e mãe irlandesa, Katherine Vaz é voz ativa na divulgação da cultura lusa. Escreve em inglês, mas dedica-se diariamente à leitura em português, e inspira-se nas suas raízes portuguesas para os seus romances, como o recentemente reeditado Mariana (sobre Mariana Alcoforado), escolhido pela Biblioteca do Congresso como um dos 30 melhores Livros Internacionais.
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