De malas aviadas, estou em êxtase com mais umas presidenciais empolgantes a abarrotarem de resplandecência. Logo eu, feito velho sentimental, que tanto me pelo por festas paroquiais com os tambores, bombos, apitos e cornetas das arruadas!
Esfrego as mãos de contente, cometendo o sacrilégio de pensar por mim próprio, ao esperar entender como candidatos presidenciais, de currículo tão invejável, conceberão, no meio de tamanha demanda bélica, a compatibilização do parque turístico em que o país se transformou, com o inevitável travão, contabilisticamente lógico, de uma parte substancial do Estado Social.
No átrio das partidas, já anoto a apressada azáfama de alguns, desfazendo-se dos cartões partidários e interrompendo a militância para projetarem uma imagem de neutralidade e de união nacional fictícias. Acho fascinantes estas escapadelas a locais selecionados como despertadores de beijos e abraços, sobretudo se bem providos de comes e bebes.
A campanha não pode ser um fiasco, porque uma eleição presidencial não pode ser um episódio qualquer, propenso a cenários exóticos para selfies. Trata-se de um evento bem fílmico, com os candidatos ávidos a baterem-nos à nossa porta como quem procura ímanes apelativos para o seu frigorífico. Depois, são os presidentes que alavancam a genuína cultura da necessidade de padarias, de vendedores de hortaliças, de melões e de gelados da sua perdição, como os da Casa Santini.
Esbaforido, olho para a validade da carta de condução e do Seguro, antes de partir para tão fervorosa itinerância. Verifico que a cobertura deste último, caducou em 2014, há cerca de 11 anos, sendo aconselhável que peça uma simulação para um novo Seguro.
Desde essa data que não me recordo de ter voltado a olhar para a apólice, talvez por não ter tido necessidade de recurso aos serviços de uma qualquer rede de oficinas credenciadas, no Rato. Ajustando este registo à campanha eleitoral, talvez essa desatenção se deva ao facto de o Seguro ter feito uma espécie de Ramadão da política, privando-se da valiosa capitalização do cansaço e da larvar insatisfação da sociedade. O meu encanto com este personagem, de melena bem mais grisalha, de gestos envernizados, atinge o auge quando irrompe, atormentado, pelo estado abandonado do cascalho do roseiral, insistindo em afirmar, com a sua amadurecida barriga, que as suas anteriores experiências partidárias comprovam que não veio da política tradicional, certificando essa sua súbita amnésia como um paradoxo existencial bem confrangedor.
Quem aguentaria com uma tradição assim, de décadas de descarado clientelismo, de indiferença ao mérito, do favoritismo, sem resposta às necessidades reais da população? Curiosa esta sua aversão à tradição, com a qual também comungo! Por conta dela, já só uso t-shirts largas e calções, calço sandálias gastas com meias cinzentas e devoro pizzas em tascas com cadeirinhas de palha desengonçadas e toalhas de mesa encardidas.
Tomando como centro da sua gestão estratégica, um longo retiro em mosteiros reconvertidos para usos culturais laicos, este Seguro protetor devotou-se a um estilo de vida contemplativo, convicto de que as suas preces diárias, assim melhor cuidariam da sorte do país que se ele se tivesse mantido na política ativa. Todos sabemos o quanto é gratificante, em política, um indivíduo fazer-se de morto, se é esta a figura que melhor se acomoda à política passiva. Nesse encontro mais íntimo consigo próprio, não lhe ocorreria que, um dia, teria de que fazer um giro para ouvir as pessoas exteriorizarem os seus problemas mais gritantes. Por certo que os não resolveria, como também seria meio caminho andado para inventar alguém a quem culpar por aquilo que as perturba. Agora, junta-se a algum anedotário nacional de comentadores, de irresistível desfrute mediático.
Por seu turno, o Luís (leia-se Marques), que nunca ganhou uma eleição, tem agora, como reluzente cartão de visita, o círculo restrito das suas análises nas curtas metragens televisivas. É através delas que se acha autoconfiante com a harmonia das suas profundas e cristalinas ideias. Induzido pela visibilidade mediática, agita ondas narcísicas com a sua experiência política, como se tal experiência nele tivesse sido soprada por resistentes bolinhas de sabão. Tem um oculto desejo de usufruir aquele poder forte que fazia com que todo o seu pequeno corpo frágil e vibrante se eletrizasse, quando abordava os excitantes temas semanais.
Da espuma marinha dos oceanos, viria o espadaúdo almirante, com um imperturbável ar espartano, junto de quem lhe pareciam ter sido soprados apressados processos de definição de ideias. Nunca revelando o seu pensamento com facilidade, muito se ufana da “Ópera da Vacina”, essa inesquecível paródia de “A Flauta Mágica” de Mozart. Faz lembrar os tempos da ausência de agulhas descartáveis e incipientes técnicas de anestesia dos pobres e sofridos glúteos da rapaziada, que tornavam as injeções uma experiência dolorosa.
Neste passeio para esticar as pernas, e numa confusão de cascos, proas e rés, compreendendo que a saturação do sistema político não é um mero capricho populista, cedo sujeitou o seu par de galões a uma conveniente deambulação, associada à jura de que não era de direita nem de esquerda, e que a sua gôndola barracuda sempre se balançaria ao centro do Grande Canal. Para amenizar as franzidas linhas do rosto, por certo que precisará de esbater, nos seus grossos sobrolhos, as emoções incómodas suscitadas por um estilo de vida confinado aos estreitos habitáculos dos submersíveis.
A este pleito, não deixará de comparecer o talentoso e imparável André, como uma oportunidade de fazer crer que possui o poder fantástico de alterar o rumo das nossas vidas. No seu hábil e calculista casamento entre razão e religião, carregará consigo a obsessiva premência do combate à tão estafada corrupção, própria dos típicos estratagemas usados para o desvio de dinheiros comunitários. Não compreende que, num país que não produz para o que gasta, é na vantagem de sermos europeus que continuamos a ter a primazia dos subsídios como novo ouro do Brasil.
Vendo encanto e beleza na decadência deste adulterado mundo moderno, investe na administração da nostalgia como remédio para que a pátria esventrada regresse ao espírito de um passado glorioso porque, no antigamente, era tudo melhor. Como imperativo de regresso aos tempos áureos, em que as pessoas comiam bolotas, poderá reintroduzir a nossa saudosa moeda antiga, a missa em latim e o espírito patriótico que se foi perdendo. É sabido como renderá votos a idealização da vivência numa época em que ainda não era conhecida a existência de ciganos, de pretos, e os muçulmanos tinham sido massacrados, sem dó nem piedade, no Al Gahrb, por intrépidos cavaleiros da cruz.
Sem temer o risco de queda num irremediável surto de corporativismo, até porque não falta quem meta as mãos no fogo por ele, decretará que os alvos dos fracos serão ainda os mais fracos. Vem de um lugar onde a existência de imigrantes é sugestiva da sua identificação como fonte de desprezíveis vícios. Tem em mente a indolência, a preguiça dos africanos, devoradora de subsídios e, ainda por cima, há quem diga que têm uns genitais desmesurados de fazer inveja aos portugueses. Não têm respeito nenhum pelos nossos valores e os seus corpos explodem de testosterona na nossa presença. Seria inconcebível que eles trouxessem sangue novo a este pedacinho ajardinado de um continente bem grisalho, apinhado de velhas e despovoadas aldeias, provocando, ao mesmo tempo, um brutal aumento das rendas das casas. Depois, já viram o medo que esta gente de cor pode provocar à noite nas ruas?
Quanto aos taciturnos eleitores, o cenário repetir-se-á como sintoma de decadência. Depois de um dia de trabalho penoso e de um stress laboral crónico, porque as ideologias não pagam rendas, nem aliviam o sufoco fiscal, não lhes sobra tempo, em fim de dia, para lerem um Norberto Bobbio, um Stuart Mill, ou até mesmo para conhecerem as ideias peregrinas de um Marx, ao compasso da cerveja e dos tremoços, numa qualquer tasca local.
No bojo das arrelias quotidianas, os sugestionáveis eleitores pasmam com as parecenças dos políticos uns aos outros, e como são cada vez mais semelhantes a modelos de passarela que desfilam perante eles, como se exibissem o caimento de peças de cadeias de lojas de centros comerciais. Como se os invejáveis presidenciáveis estivessem num lançamento de marcas, com aplausos contratados, massas obedientes, doutorados em TikTok, entregues à vertigem de um frenético chinfrim do marketing eleitoral.
Se esta análise estiver correta – garantindo, desde já, que conta com a pesquisa de um motorista de táxi sério –, julgo que, do murmúrio das vozes dos eleitores, se extrai a sua crença de que os propalados sonhos não têm que se realizar, e que promessas não são garantias, pelo que aprenderam a ridicularizar a mentalidade agnóstica dos políticos que de tudo fazem um jogo, como se ficassem contentes, como crianças, quando ganham os jogos por elas mesmas inventados.
É bom lembrar que não são os génios das tascas que fazem piscar os seus olhos com nervosismo. Eles sabem bem que um povo culto, esse sim, é perigoso. Foi, por certo, por conta dessa periculosidade, que o poeta Heinrich Heine deixou, como testamento literário, a convicta narrativa de que “os que queimam livros acabam queimando homens”.
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