Tenho um amigo que já perdeu aquele olhar de quem pertence a si próprio. Tem dias em que acorda mais morto que vivo e, no entanto, sente-se gratificado por saber que foi um milagroso acaso ter-se encontrado com a vida, sem nada nada ter feito para merecê-la.
Nasceu num pequeno território que não se constitui mais como seu referencial de pertença, onde emergem os dias em que não se sente encaixado em lado nenhum. Olha as tardes outonais com uma obscuridade fantasmagórica, própria de quem projeta nelas a revolta latente que o persegue.
Inconformado, nunca encontrou jeito de se deixar catalogar nas arrumações ideopolíticas, académicas, sociais, mundanas, do seu tempo. Mantém uma familiar afinidade com o louco de Nietzsche que andava à procura de Deus na ágora grega. Desconhece como superar o niilismo e encontrar um novo sentido para a sua existência após a “morte de Deus”, embora persista nessa metafísica e inglória azáfama.
Vive a vida a zurzir pelo facto de a igreja católica ter enfiado a vida de Lúcia na absurda rotina das orações de um convento, quando faria sentido que ela assumisse uma convincente pregação da sua fé, ao redor do laicizado mundo. Por certo que, enfiada na cela de um mosteiro, até o hábito mal enxergaria.
Nos seus tempos de estudante, era ousadamente feliz. De tão magro e leve que era, achava que podia desafiar as leis da gravidade. Conservava répteis em formol e aprendera com o seu avô a construir castelos no ar,
como espaços prodigiosos de fantásticos contos de fadas.
Hoje, com a esperança derretida ao sol, percebe que o tempo lhe acentua a decrepitude, sem autorização prévia, valendo dizer que ainda não descobriu bem o que fazer com ele.
Tem a trágica impressão de que os mais jovens olham para si como se fosse uma figura bizarra saída do Antigo Testamento, ou um quadro pintado com uma natureza morta, sem possível recuperação tecnológica da sua seiva pela vigorosa inteligência artificial.
Já não encontra mais amparo para a inquietação e para o desassossego que acompanham a sua tristeza. É como se tivesse sido abordado por um profundo ceticismo, criando ameias defensivas no castelo do corpo em ruínas que é o seu. A ideia de que seria sempre uma fortaleza inexpugnável tinha sido mais um mito ou uma estratégia de defesa psicológica do que uma inconfessada realidade.
Um mito precoce, que ditaria o seu desdém pela nova geração de portugueses que, a seu ver, já nem deveriam saber cobrir-se de excitações. Não fora assim e o país não estaria a passar por um assustador ritmo de diminuição de habitantes, que faria com que, a breve trecho, o território apenas fosse habitado por espíritos do passado, que já nem passado haveriam de ter para contar.
Ele sabe que é na leveza da intimidade que as amizades proliferam, mas, ainda assim se deixa atrair pelos espaços sociais onde os simulacros de amizades têm lugar numa absurda e confrangedora espetacularidade.
Conta, pelos dedos, os amigos junto de quem abre a profundidade do seu ser, para além das superficiais aparências do narcisismo reinante em que hoje tendemos a mostrar-nos.
Nem os políticos lhe parecem fugir à eleição da vaidade como um dos sete pecados capitais. Detesta ver a exibição de suas imagens grandiosas, idealizadas em placards, muitas vezes associadas a qualidades como inteligência, beleza e sucesso. Nasce-lhe pele de galinha com essa forma de propaganda que visa reforçar a figura do líder e sua conexão com o poder e a dificuldade de se reconhecer a si mesmo no outro.
Na arena política, o narcisismo pode-se manifestar através da construção de uma imagem idealizada do candidato, que pode ser utilizada para conquistar a admiração e o apoio dos eleitores, criando uma conexão emocional com o mesmo. No entanto, essa fervorosa estratégia pode gerar efeitos negativos, como o distanciamento entre o político e os eleitores que não se identificam com a imagem projetada, dificultando o diálogo e o debate construtivo.
Além disso, o narcisismo político pode contribuir para o acirramento de disputas ideológicas, como observado em algumas campanhas eleitorais, que mais se configuram como cenários de confrontação que de diálogo.
Doem-lhe as promessas vazias dos políticos, enfeitados de glamourosos encantadores de serpentes que, na pobreza do seu pensar, julgam que tudo o que all you need is food.
Anda enfadado, o meu amigo, por se achar num país que, de modo autista, persistirá em fazer jus à afirmação de Berman de que “tudo que é sólido se desmancha no ar”, no fogo, no lítio, ou morre na praia.
Exaspera-se o meu amigo por viver num país que continua de costas voltadas para o futuro, não podendo esperar outra coisa do seu futuro que não viver de ecos do passado.
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