Subjugado por uma intensa torrente de fake news, nem queria acreditar na má sorte das vidas demolidas daquela centena de pessoas que, em Loures, envolviam crianças, numa mistura de ingredientes tão tóxicos.
Confesso que fiquei de coração tão apertado, com tamanha severidade, que quase não fui capaz de reconhecer nas lágrimas e soluços daquela gente, os seus gemidos de dor. Foi como se ali tivesse fenecido uma parte significativa da minha cultura.
Tinha acabado de comprar um disco riscado dos anjos, com a garantia de que ele viria a constituir uma valiosa relíquia, num futuro próximo. Mas, perante atuação tão ignóbil, deixei-o cair, de súbito, desfazendo-o em estilhaços, como se nenhuma moral o pudesse blindar da queda.
Seria maquiavelismo mental, o meu, pensar que este infausto acontecimento poderia ter lugar por conta de um tempo propício ao polimento dos galões eleitorais e seus desmandos?
Se se tratasse de uma guerra à estranja, em pleno talude militar, certamente que os roncos dos buldózeres de Loures só poderiam parecer gloriosos e bravos patriotas, a avançar para as barracas como quem investiria contra os saxões marchar, marchar. Tratando-se de um frenético rasgar de latas recicladas pela pobreza, aquele vigoroso labor arrancava-me intensos arrepios à flor da pele, fazendo acompanhar de náuseas o meu mal-estar generalizado, o que não era coisa pouca.
Em busca de sentido para a existência humana, dar-me-ia conta de que os magistrais ruídos da violência destas pesadas máquinas não são categorizáveis por simpatias políticas, nem dados a que os silenciemos.
Vinha-me à ideia o olhar de Heidegger sobre a violência que, segundo ele, para além de um problema social ou político, ela constituiria, originariamente, um elemento estrutural do ser desumano, da nossa manifesta incapacidade de ser-com-outros.
Olho, atónito, para a Cidade e para o Estado Social e os seus compromissos, ficando, em vão, à espera de decisões acertadas, indignado com a brutalidade da hostilidade autárquica. Agoniado com a sofisticação primária daquela estratégia de marcação do talude, de transformação do pessoal de barracas em meninos de rua, sobreveio-me um azedo vómito.
A justificação para o poder autárquico deitar abaixo tantas vidas, na afanosa demolição, iria ao encontro da argumentação pífia da possibilidade de esmolaria no apoio às rendas de casa, o que não me corria goela abaixo. Como seria possível aprofundar-se, com ela, a miséria mais lúmpen que a humilhação na terra poderia parir e jogar com apoio às rendas na absolvição dos seus pecados?
Com a energia fácil de um pensamento virado para o seu próprio ego, é incrível que ainda haja autarcas capazes de atos tão inqualificáveis, perpetrados por uma gaseada agitação político-partidária que se permite acomodar pessoas a céu aberto, sem uma veemente condenação da opinião pública. Vivendo uma desaforada conquista do poder, esquecem que, para os eleitores, incursões do género apenas são cópias foleiras de um radicalismo que sempre dará preferência aos originais.
E é no olhar atónito para estes devaneios autárquicos, bem inscritos na ação desumana dos buldózeres que, em vão, se pretende conferir a perceção de que uma política firme só é dada a garanhões que têm membros duros que nem uma rocha. Ah! Nação valente com os fracos que, nos sopros do tempo, cava uma retórica agressiva que os machuca, em vez de decretar um luto sepulcral pelos autarcas.
Com buldózeres espezinham-se vidas e toca-se a rebate um retrocesso civilizacional de meter dó. Uma brutal política autárquica do machadinho, qual fina pelicula entre civilização e barbárie, parece estar de volta. Talvez, por isso, tenha voltado à regurgitação, por conta da violência estampada naquela camisola autárquica. Sim, porque a confeção daquele agasalho é feita de votos destinados à boa gestão da nossa vida coletiva, rumo a um mundo melhor e não para nos depararmos com este mergulho fatal numa destruição pouco criativa e bem aviltante, de inexistentes alternativas.
Será pertinente indagar quem é esta gente que se esconde por detrás de máscaras de sanidade mental? Que autárquicos genes lusitanos correm no sangue das parentelas políticas? Como podemos olhar com fascínio para os mitos e lendas de que fomos feitos? Como conseguem interiorizar uma política edificada em frias máquinas calculistas programadas para atacar? Como é possível que estas narrativas de violência os habitem de forma indolor?
Grito e vomito, de novo, como se o refluxo gastroesofágico persistisse, por conta das cruas sensações que os maquínicos ruídos me provocam. Que infortúnio, que vergonha e tristeza conviver com indivíduos que nos fazem naufragar como povo. Como poderemos olhar a humanidade com esperança?
Deixo-me invadir por uma estonteante corrente de melancolia, movido a andar por toda a parte, anunciando que Deus está morto, em companhia de Nietzsche.
Naquela triste e leda madrugada percebi que a culpa de sermos, como somos, não é de Camões, nem da essência da alma portuguesa que tem na Nação uma figura maternal.
Num hino insultuoso às cambalhotas da nossa História, verificava que esta prática política, com barba de demasiados anos e de pegajoso cabelo oleoso, ainda não tinha sido extinta. Não seria caso para esta gente escovar o interior de uma consciência que não tem? Que pequeno e paroquial parece ser este nosso mundo, obcecado com uma violência tão desproporcionada que lhe faz perder o sentido da vergonha de tragédias tão obscenas.
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