Aproximam-se novas eleições para as autarquias, que hão de anteceder novas para a Presidência da República, depois de as ter havido para a Assembleia da República (quatro em, apenas, sete anos!), sinónimo, ouvir-se-á dizer, de que a democracia estará a funcionar devidamente, ainda que o país, produtivamente, nem tanto, antes pelo contrário e se assista:
– A uma crescente degradação do SNS;
– A um aumento da mortalidade infantil em 20%;
– A gente, cada vez mais, a ter como recurso «habitacional» uma barraca ou uma rulote;
– A filhos, com empregos precários e mal remunerados, não conseguindo sair da casa dos pais ou, quando saem, sendo para o estrangeiro;
– Ao desespero por uma sentença judicial em tempo útil;
– A quase um milhão de reformados da Segurança Social recebendo menos de quinhentos euros mensais, ou seja, «vivendo» abaixo do limiar de pobreza;
– A sucessivos casos de corrupção, já se começando a ter dificuldade em saber onde terminará a fronteira de simples meia dúzia de árvores e começará a da floresta;
– As contratações por ajuste direto, com todas as suspeições que possam comportar, a tornarem-se regra, em vez de exceções, tal a «complexidade» do país:
– Etc.

Jurista
Afinal, a política poderá ser uma vocação, mas, também, um plano de carreira, onde caberá, nomeadamente, a pequena fraude eleitoral de se ser eleito para um lugar que, depois, não se exercerá
Entretanto, os diversos partidos, mais uma vez, já começaram a apresentar, não só, os respetivos programas gestionários para as autarquias, como a evidenciar os currículos, as excelsas qualidades dos seus candidatos a gestores das mesmas: amor à causa pública, raízes no concelho, espírito de missão, em suma, tudo gente séria, dedicada e competente, pronta a servir e apoiada, não raro, por «Comissões de Honra» de honrados e distintos cidadãos concelhios. Mesmo quando, depois, o prometido não é cumprido e candidatos havendo que uma vez eleitos possam, depois, deixar os lugares para que eleitos foram, trocando-os por outros tidos como mais prestigiantes ou melhor remunerados, num Parlamento Europeu ou no conselho de administração de uma qualquer empresa de águas. Afinal, a política poderá ser uma vocação, mas, também, um plano de carreira, onde caberá, nomeadamente, a pequena fraude eleitoral de se ser eleito para um lugar que, depois, não se exercerá.
E os eleitores?
Esses irão assistindo ao ciclo como quem vê uma novela já meio gasta: mudam, quando mudam, os rostos, os slogans, os cartazes – mas os episódios serão quase sempre os mesmos. Cada vez mais se abstendo, votando em branco ou, apenas, votando para «abanar»(1) um sistema em que terão deixado de acreditar, onde haverá limites orçamentais para o investimento na saúde, na educação, na habitação ou para as reformas, mas não para se investir em armamento. Fora aqueles eleitores, naturalmente, sempre crentes no surgimento dum «D. Sebastião», seja ele André Ventura ou outro qualquer.
(1)«Votei no Chega para abanar isto tudo» – eleitor ouvido em reportagem do jornal Público.
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