Diz-se por aí, com ar grave e sobrancelha franzida, que só as elites fazem progredir os países. São elas — os doutores, os pensadores, os lançadores de discussões fundadoras — que, entre um café e um colóquio, moldam o destino dos povos e erguem os pilares da liberdade e da justiça. O povo? Esse, coitado, anda entretido a votar no Benfica e a seguir influencers que ensinam a fazer arroz de polvo com três ingredientes e um filtro de Instagram.
Ora, permitam-me discordar com a leveza de quem não usa gravata, não possui cartão de elite e, como tal, não tem lugar num qualquer Expresso ou seu apêndice. Porque se há coisa que a história nos ensinou é que os países não se movem apenas ao som das conferências, mas também ao ritmo das enxadas, das bandejas e dos teclados de caixa registadora.

Jurista
É curioso — e aqui entra o humor democrático — que os mesmos que exaltam as elites se queixem da falta de pedreiros, carpinteiros e empregados de mesa
O elitista típico olha-se ao espelho e vê um Prometeu moderno: traz o fogo do progresso, acende debates, ilumina a caverna onde o povo se distrai com futebol e telenovelas. Mas esquece-se de que, sem o povo, não há caverna, nem fogo, nem sequer Prometeu. Por que quem constrói a escola onde o doutor estudou? Quem serve o jantar no restaurante onde ele discute Kant e Habermas? Quem limpa o auditório depois do colóquio sobre “A Ética na Era Digital”?
É curioso — e aqui entra o humor democrático — que os mesmos que exaltam as elites se queixem da falta de pedreiros, carpinteiros e empregados de mesa. Talvez porque todos os pais querem que os filhos sejam doutores, mesmo que depois não ganhem para pagar a renda. Resultado: temos doutores a fazer entregas de bicicleta e imigrantes a construir os prédios onde os doutores moram. Uma espécie de meritocracia às avessas, onde o mérito é ter um diploma e a realidade é não saber pendurar um quadro.
A democracia não é um salão de chá para elites ilustradas. É uma praça pública onde todos têm voz — mesmo os que não sabem citar Rousseau, mas sabem o preço do pão, havendo mais verdade numa conversa de tasca do que num editorial pomposo. E eu, com saudável humor democrático, digo que o progresso não se faz só com doutores. Faz-se com gente. Toda a gente.
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