No passado dia 26 de junho, o Presidente Socialista da República Portuguesa, quando questionado relativamente ao envio de ajuda para a Venezuela, no seguimento da tragédia que se abateu sobre o meu país, entre outras declarações disse que “Portugal vai ajudar […] sobretudo, porque temos uma grande comunidade de portugueses também na Venezuela”. Essa declaração foi proferida num contexto em que Portugal anunciava o envio de ajuda humanitária e equipas de emergência para apoiar as vítimas dos devastadores sismos que atingiram o país.
Contudo, as ajudas não deveriam ser enviadas porque existe uma grande comunidade portuguesa ou de lusodescendentes na Venezuela. Devem ser enviadas porque existe uma tragédia humana! A solidariedade deve assentar na dignidade da pessoa humana, independentemente da nacionalidade, da raça, da religião ou da origem.
Aquando do fluxo migratório português para a Venezuela, os venezuelanos não olharam para passaportes, até porque muitos portugueses nem os tinham, não olharam à cor da pele ou à religião. Viram pessoas. Pessoas que fugiam da pobreza, das dificuldades económicas e das limitações impostas pela realidade portuguesa da época, procurando oportunidades para construir uma vida melhor e ajudar as famílias que permaneceram em Portugal.
O grande fluxo migratório ocorreu principalmente entre as décadas de 50 e 60, quando dezenas de milhares de portugueses, sobretudo oriundos da Madeira, mas também de várias regiões do Continente, escolheram a Venezuela como destino. Muitos chegaram sem praticamente nada e encontraram um país em crescimento, disposto a acolhê-los e a oferecer-lhes oportunidades de trabalho e integração.
Os portugueses foram recebidos com hospitalidade pelas autoridades venezuelanas e pela população local. À medida que demonstravam a sua capacidade de trabalho e o seu contributo para o comércio, a agricultura, a indústria e os serviços, o Estado venezuelano promoveu processos de regularização que facilitaram a integração de milhares de emigrantes, chegando mesmo a enviar os seus funcionários públicos para zonas comerciais, fora dos seus locais de trabalho comuns, de forma a facilitar a entrega da documentação, legalizando a situação de cada um praticamente na hora, sempre em reconhecimento da importância da comunidade portuguesa para o desenvolvimento económico do país.
O Sr. Presidente da República não deve esquecer esse passado. Durante décadas, milhares de famílias portuguesas, particularmente da Madeira, mas também do Continente e dos Açores, sobreviveram, prosperaram e construíram património graças ao acolhimento que encontraram na Venezuela.
Durante muitos anos, abrir um envelope vindo de Caracas, Valencia, Maracaibo, Barquisimeto ou do Estado Portuguesa significava esperança para inúmeras famílias portuguesas. Esses envelopes pagavam estudos, construíam casas, sustentavam pequenos negócios e ajudavam a desenvolver muitas localidades portuguesas. Em muitas freguesias da Madeira ainda hoje existem testemunhos vivos desse período de prosperidade construída com o esforço dos emigrantes na Venezuela.
Se outrora os portugueses ficavam felizes ao abrir envelopes com ajuda financeira vinda dos seus familiares desde a Venezuela, hoje, a história inverteu-se. É a Venezuela que sofre e precisa da solidariedade internacional. Portugal deve ajudar, naturalmente. Mas deve fazê-lo porque existe uma obrigação moral perante um povo atingido por uma tragédia e não apenas porque entre as vítimas existem portugueses ou lusodescendentes.
A amizade entre os povos não pode ser seletiva nem circunstancial. A memória histórica deve servir para recordar que, quando Portugal precisou, a Venezuela abriu as portas. Agora que a Venezuela enfrenta um dos momentos mais difíceis da sua história recente, é legítimo esperar que Portugal retribua essa solidariedade com o mesmo espírito humanista que, em tempos, encontrou do outro lado do Atlântico. A solidariedade entre nações não deve ser medida pelo número de portugueses ou lusodescendentes que vivem além-fronteiras, mas pela capacidade de reconhecer que a vida humana tem o mesmo valor em qualquer parte do mundo.
Esse é o princípio que deve orientar qualquer democracia e qualquer Estado verdadeiramente comprometido com os direitos humanos, como o meu um dia será quando liderado democraticamente pela Maria Corina Machado!
Com isto quero deixar para reflexão que estamos numa via de duplo sentido, ontem foi a maravilhosa comunidade de portugueses que teve que emigrar por distintas situações, hoje são os venezuelanos que tiveram a necessidade de sair da sua terra para encontrar qualidade de vida e poder ajudar as suas famílias que ainda encontram-se lá a sobreviver, agora no meio de escombros.
Com lágrimas e coração partido finalizo este meu artigo de opinião.
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