Há um equívoco devastador a corroer a democracia: a ideia de que a política é um palco para uns poucos — “os políticos” — enquanto o resto de nós assiste e muda de canal. Esta passividade instalada tornou-se o maior triunfo do oportunismo político. Quando os cidadãos se limitam a observar, a política transforma-se num espetáculo. E, como em qualquer espetáculo, manda quem controla o palco.
É por isso que vemos discursos cheios de palavras e vazios de sentido. Promessas sem compromisso. Mudanças sem explicação. Uma sucessão de frases calculadas para agradar ao instante, sem assumir consequências. Mas não nos enganemos: esta forma de fazer política só prospera porque lhe damos espaço. Porque trocámos o papel de protagonistas pelo de espetadores.
A tradição crítica, tantas vezes descartada como velha ou incómoda, ensina-nos a não aceitar este teatro. Hegel lembra-nos que a história avança através das tensões que procuramos ignorar. Marx mostra que as ideias não nascem no ar — nascem das condições reais em que vivemos. Gramsci avisa que quem controla a cultura controla também o sentido comum. E Adorno denuncia a facilidade com que nos deixamos domesticar por mensagens embaladas para consumo rápido.

Jurista
O espetáculo só continua enquanto houver plateia. A democracia só continua se houver participantes. A escolha é nossa. E o tempo é agora
Estes pensadores incomodam porque mostram o que preferimos não ver: o esvaziamento intelectual da vida pública não é inevitável. É construído. É permitido. E só continuará enquanto nós o aceitarmos.
O oportunismo político não se combate com indignação passiva. Combate-se com participação. Com memória histórica para saber de onde vimos. Com escuta atenta para distinguir o que é substância do que é mero ruído. Com coragem ética para questionar quem tenta transformar a democracia numa feira de promessas embaladas.
A verdade é simples e exigente: a política é demasiado importante para ser deixada aos políticos.
A democracia só vive quando nós vivemos nela. Quando votamos, sim — mas também quando perguntamos, contestamos, propomos, fiscalizamos. Quando recusamos o papel confortável de público e reclamamos o de cidadãos.
Portugal não precisa de mais slogans nem de mais atores políticos a representar modernidade. Precisa de pessoas comuns dispostas a assumir o espaço público como seu. A política não é aquilo que eles fazem. É aquilo que todos fazemos — ou deixamos de fazer.
O espetáculo só continua enquanto houver plateia. A democracia só continua se houver participantes. A escolha é nossa. E o tempo é agora.
Leia também: Europa, S.A. | Por Luís Ganhão
















