Maria Albuquerque, comissária europeia das finanças, sonha alto: que os cidadãos deixem de ser poupadores tímidos e se tornem investidores destemidos. Já não basta a caderneta no banco; agora é preciso lançar-se nos mercados de capitais, como quem troca o mealheiro por uma roleta.
Numa Europa de acionistas, o piquete já não se erguerá à porta da fábrica, mas no portal da corretora. O operário e o patrão, ambos acionistas, farão greve contra si próprios — espetáculo digno de Ionesco, mas com gráficos de velas japonesas.

Jurista
Uma Europa, SA onde a dignidade humana, outrora inscrita em constituições, passará a ser cotada em bolsa, o direito à greve não passará de mais uma linha no gráfico da volatilidade e o pão e os dividendos se tornarão equivalentes
As reivindicações mudarão de natureza: não se pedirão salários, exigir-se-ão dividendos; não se reclamará descanso, mas pedir-se-á volatilidade moderada. O subsídio de refeição será pago em criptomoedas e o subsídio de férias em “stock options”.
A democracia, cansada e teatral, transforma-se-á em assembleia geral transmitida em direto. O povo já não votará em partidos, mas em índices. E quando protestar, não ocupará praças: encenará crashes, quedas de bolsa como forma de indignação performativa.
Em suma:
Uma Europa, SA onde a dignidade humana, outrora inscrita em constituições, passará a ser cotada em bolsa, o direito à greve não passará de mais uma linha no gráfico da volatilidade e o pão e os dividendos se tornarão equivalentes.
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