A guerra, com toda a sua brutalidade, é uma das expressões mais cruas da falência da humanidade. Para o cidadão comum, ela representa dor, destruição e perda — uma tragédia que deveria ser evitada a todo o custo. E, no entanto, repetidamente ao longo da história vemos populações inteiras a aceitar e até a apoiar conflitos armados. Porquê?
A resposta reside na forma como, não raro, as elites — políticas, económicas e militares — conseguem “vender” a guerra como se fosse um produto necessário, até desejável. Através de propaganda, manipulação narrativa e reinterpretação dos factos, a guerra deixa de ser vista como um ato de agressão ou de interesse estratégico e passa a ser apresentada como uma missão justa, patriótica ou humanitária.
Um exemplo gritante foi a invasão do Iraque em 2003. Sob o pretexto da existência de armas de destruição maciça — armas que nunca foram encontradas —, foi promovida uma intervenção militar que custou centenas de milhares de vidas e desestabilizou uma região inteira. Mas, na altura, muitos aceitaram o discurso oficial porque ele foi cuidadosamente construído: os media repetiram acriticamente os argumentos das elites, enquanto Saddam Hussein era transformado na personificação do mal.

Jurista
Aceitar a guerra sem questionar é, em última análise, aceitar que a verdade pode ser fabricada, que a história pode ser moldada e que a vida humana pode ser sacrificada em nome de interesses que não são os nossos
Esta lógica repete-se. Para que a guerra seja aceitável, é preciso criar um vilão. Demoniza-se um líder, um povo ou um grupo. Simplifica-se o conflito, apagando décadas de tensões, injustiças ou contextos históricos. Quem se opõe ao discurso dominante é rotulado de traidor ou ingénuo. E, quando necessário, a história é reescrita: os que atacaram tornam-se defensores da liberdade, os que resistiram tornam-se terroristas.
Por trás de tudo isto, escondem-se, muitas vezes, interesses menos nobres: controlo de recursos naturais, influência geopolítica, lucro da indústria militar. Mas esses interesses não são falados, porque não mobilizam consciências como a ideia de “defender a democracia” ou “salvar civis inocentes”.
É neste jogo de sombras que o cidadão comum precisa de se manter vigilante. Não é fácil resistir à força da propaganda, sobretudo quando ela é constante e omnipresente. Mas o pensamento crítico, o acesso a fontes diversas e a capacidade de questionar o que nos dizem são as armas que temos — e que devemos usar — para não sermos cúmplices involuntários de tragédias mascaradas de justiça.
Porque aceitar a guerra sem questionar é, em última análise, aceitar que a verdade pode ser fabricada, que a história pode ser moldada e que a vida humana pode ser sacrificada em nome de interesses que não são os nossos.
Leia também: Democracia a funcionar, ainda que… | Por Luís Ganhão
















