No dia 12 de junho de 1985, Portugal assinava, em Lisboa, o Tratado de Adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), concretizando o sonho de uma geração que via na Europa não apenas uma oportunidade económica, mas sobretudo uma âncora democrática. Quarenta anos depois, é tempo de refletir sobre o impacto deste momento histórico, os caminhos percorridos e os desafios que ainda se colocam ao país no seio da atual União Europeia (UE).
O antes: Portugal à procura de estabilidade e progresso
No rescaldo do 25 de Abril de 1974, Portugal emergia de décadas de ditadura com uma grande carência de modernização e estabilidade. A década de 1980 foi marcada por uma economia frágil, dependente de setores pouco competitivos e de um Estado ainda em edificação dos seus alicerces democráticos. A adesão à CEE surgia, assim, como uma porta de entrada para a consolidação do regime democrático, a atração de investimento e a inserção num espaço económico mais amplo e competitivo.
1985: A assinatura que mudou o rumo do país
O processo de adesão foi longo e exigente, uma vez que implicou uma série de reformas estruturais profundas, ajustamentos económicos e negociações complexas. Ainda assim, a assinatura do tratado em 1985 foi amplamente celebrada, e a entrada oficial a 1 de janeiro de 1986 foi vista como um ponto de viragem. Portugal tinha novamente a sua esperança renovada para um futuro mais próspero e digno.
Quarenta anos de transformação
A integração europeia trouxe a Portugal benefícios incontestáveis. Os fundos estruturais permitiram desenvolver as infraestruturas rodoviárias, ferroviárias, escolas e hospitais por todo o território. Programas como o Erasmus+ abriram portas à mobilidade estudantil e à construção de uma geração mais cosmopolita. A agricultura, o turismo e as exportações ganharam um novo impulso dinâmico.
Segundo os dados do Pordata e do INE, entre 1986 e 2024, o PIB per capita português (em paridade de poder de compra) cresceu cerca de 40%. A taxa de escolarização aumentou significativamente, a esperança média de vida subiu e a pobreza extrema diminuiu. A participação na zona euro e no espaço Schengen serviu como uma alavanca para consolidar ainda mais o papel de Portugal na Europa.
Nem tudo foram rosas
Evidentemente, a adesão não foi isenta de críticas e desafios. A excessiva dependência de fundos europeus criou vulnerabilidades, pelo que algumas regiões ficaram para trás no processo de convergência e a exposição precoce dos setores de atividade económica portugueses à concorrência europeia levou ao encerramento de indústrias menos competitivas. Além disso, em tempos de crise — como a financeira de 2011 ou a pandemia da COVID-19 — surgiram vozes que questionaram os limites da soberania nacional.
Por vezes, as decisões tomadas em Bruxelas parecem distantes da realidade portuguesa. E o crescente euroceticismo que se observa noutras latitudes europeias não abonam a favor desta incerteza que levanta a questão: até que ponto conseguimos manter o equilíbrio entre integração e autonomia?
Portugal hoje: presença ativa, mas ainda com margem para crescer
Atualmente, Portugal é visto como um parceiro estável e comprometido com os valores europeus. Participa ativamente nas instituições europeias e tem beneficiado de planos como o NextGenerationEU para a recuperação económica e digital, além de ter também assumido uma posição ativa em áreas como a energia verde, os direitos humanos e a diplomacia global.
Numa ótica menos otimista, Portugal continua a enfrentar desafios estruturais, como a baixa produtividade, desigualdades territoriais e a emigração de profissionais qualificados, aliada a uma juventude por vezes descrente das oportunidades internas.
Apesar destes desafios, a Europa pode — e deve — continuar a ser parte da solução, mas isso exigirá uma estratégia nacional clara e uma participação cívica mais ativa dos cidadãos portugueses no projeto europeu.
O futuro da Europa passa por nós
Acima de tudo, podemos concluir que celebrar os 40 anos da assinatura do tratado de adesão é também celebrar o caminho de um país que escolheu a democracia, o progresso e a cooperação como pilares do seu desenvolvimento. Mas é igualmente um convite à reflexão crítica: que Europa queremos para os próximos 40 anos? E que papel Portugal está disposto a desempenhar?
A resposta dependerá da nossa capacidade coletiva de aprender com o passado, agir no presente e projetar um futuro ambicioso — sempre com os olhos postos na ideia de uma Europa mais justa, solidária e próxima dos seus cidadãos.
Sobre o autor do artigo: Daniel Cruz, de 20 anos, natural de Lagos, é estudante do 2.º ano da licenciatura em Gestão de Empresas na Universidade do Algarve. Atualmente, está a dar os primeiros passos na intervenção e discussão política, tendo ingressado recentemente na JSD.

“40 Visões da Europa”
A 12 de junho de 1985, Espanha e Portugal assinaram o Tratado de Adesão às então Comunidades Europeias (Comunidade Económica Europeia, Comunidade Europeia da Energia Atómica e Comunidade Europeia do Carvão e do Aço). Este foi o terceiro alargamento.
O Europe Direct Algarve, a CCDR Algarve, a Eurocidade do Guadiana e outros parceiros transfronteiriços associaram-se para assinalar a data. A rubrica «40 Visões da Europa» vai dar voz a 40 pessoas (líderes políticos e associativos, jovens, cidadãos ,..)
Entre 4 de maio e 12 de junho (data da assinatura dos 40 anos do Tratado de Adesão) todos os dias um artigo . Mais informação sobre a campanha na página conjunta (4) Facebook
Leia também: 40 Visões da Europa: A União Europeia e o labirinto da dívida pública | Por Ana Nazar

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