Opinião

Leitura da Semana: A Cadela, de Pilar Quintana

Paulo Serra

06-04-2021

Esta semana, Paulo Serra propõe a leitura de uma obra da escritora colombiana Pilar Quintana, uma das novidades da Dom Quixote neste regresso editorial, e provavelmente um dos grandes livros deste ano. Finalista do National Book Award em 2020, este pequeno grande livro, com cerca de 130 páginas, lê-se de uma assentada em poucas horas

A Cadela, de Pilar Quintana, com tradução de Pedro Rapoula, é uma das novidades da Dom Quixote neste regresso editorial, e provavelmente um dos grandes livros deste ano. Finalista do National Book Award em 2020, este pequeno grande livro, com cerca de 130 páginas e que se lê de uma assentada em poucas horas, reveste-se de uma linguagem límpida, sóbria. A história é aparentemente simples, quase ingénua, com um toque digno de uma narrativa clássica. Até que a certa altura, quando o leitor se apercebe de que é difícil escrutinar o pensamento da protagonista, cujas camadas mais profundas se pressentem, começa a palpitar o sentido latente e misteriosamente oculto do livro.

A escritora Pilar Quintana

Na costa da Colômbia virada ao Pacífico vive Damaris, uma mulher negra e pobre com mais de 40 anos, uma verdadeira matrona com um corpo pujante como uma árvore, mãos grossas e desajeitadas de homem, e que já passou a idade de conseguir ser mãe, como sempre quis ser. Essa frustração esfriou inclusive o seu casamento com Rogelio, homem que, aparentemente frio e violento, se vai suavizando aos olhos do leitor, designadamente na forma como cede às tentativas desesperadas de Damaris de engravidar junto de um médico indígena.

A certa altura, a vida de Damaris muda ao adoptar uma das últimas cadelinhas de uma ninhada. Cai até no ridículo de chamar Chirli à cadela, o nome que em tempos sonhou dar à filha que nunca teve. A partir daí, a narrativa entra numa espiral descendente… Sentimos piedade por Damaris, conforme nos é desvelado o seu passado – filha de mãe solteira que mal conheceu, criada pelos tios, testemunha em criança de um acidente terrível, que lhe vale ainda uma série de agressões físicas –, mas esse sentimento de empatia irá gradualmente dando lugar a um certo desconcerto ou assombro.

Numa tessitura narrativa cirúrgica, quase fria, de uma brilhante concisão de palavras, o leitor pressente a complexidade da relação excessiva que Damaris estabelece com o animal, especialmente quando percebe que não consegue verdadeiramente domar a cadela, evitando por exemplo que ela decida sair em liberdade e se perca dias a fio na selva, ou quando a cadela engravida e logo rejeita as crias. E a par da selva vizinha, ou do mar indómito que traga a vida de pessoas e as devolve irreconhecíveis, Damaris tem em si uma imensidão de emoções que esta pseudo-maternidade espoletou. Algumas profundamente desumanas.