No Algarve, ter automóvel continua a ser, para uma parte significativa da população, praticamente uma condição obrigatória para viver, trabalhar ou simplesmente aceder a serviços essenciais. Numa região que se afirma como um dos principais destinos turísticos do país, que ambiciona crescer economicamente e que enfrenta desafios ambientais cada vez mais exigentes, é legítimo questionar: onde está a mobilidade acessível, integrada e verdadeiramente sustentável?
A dependência excessiva do automóvel não resulta apenas de uma preferência individual. É, acima de tudo, consequência da insuficiência de alternativas de transporte público capazes de responder às necessidades quotidianas das populações. Quem não tem viatura própria, quem não pode conduzir ou quem simplesmente pretende optar por uma deslocação mais sustentável enfrenta demasiadas limitações.
A mobilidade deveria ser um direito acessível a todos, independentemente da localidade onde residem ou da sua condição económica.
Esta realidade torna-se particularmente evidente numa região marcada pela dispersão territorial, pela sazonalidade turística e por profundas diferenças entre os principais centros urbanos e as localidades periféricas.
Comecemos pela ferrovia.
A eletrificação integral da Linha do Algarve, concretizada em julho de 2026, representou um investimento de aproximadamente 135 milhões de euros e um passo importante para a modernização ferroviária da região. Permitiu introduzir comboios elétricos em toda a extensão entre Lagos e Vila Real de Santo António, eliminar a necessidade de transbordo em Faro e reforçar a oferta regional em cerca de 18%.
É, naturalmente, uma evolução positiva. Mas importa perceber que este investimento, embora significativo, não resolve todas as fragilidades estruturais da rede ferroviária algarvia.
A modernização da ferrovia não pode ficar limitada à eletrificação. Precisamos de investir na infraestrutura, na sinalização, na capacidade de circulação, na duplicação de determinados troços e na requalificação das estações. O próprio projeto de eletrificação contempla intervenções complementares de sinalização, telecomunicações e segurança ferroviária, demonstrando que a modernização exige muito mais do que a substituição da tração a diesel pela elétrica.
A Linha do Algarve continua a apresentar uma limitação estrutural importante: a predominância de via única. Esta configuração condiciona a frequência dos comboios, a capacidade de circulação e a possibilidade de oferecer horários mais competitivos. A construção de troços de via dupla, sobretudo nos segmentos de maior procura, deveria integrar uma estratégia de investimento a médio e longo prazo.
Mas há outra questão frequentemente esquecida: a localização das estações ferroviárias.
Albufeira é um exemplo evidente, com a estação localizada em Ferreiras, afastada do principal centro urbano. Contudo, também Loulé enfrenta uma dificuldade semelhante. A estação ferroviária de Loulé – Praia de Quarteira situa-se em São Sebastião, a cerca de cinco quilómetros do centro da cidade, servindo igualmente Quarteira e Vilamoura.
Embora exista uma ligação de autocarro entre a estação e estas localidades, é necessário assegurar uma articulação eficiente entre os horários ferroviários e rodoviários. Caso contrário, o passageiro continua a enfrentar tempos de espera e deslocações adicionais que retiram competitividade ao transporte público.
Aliás, a própria estratégia governamental de mobilidade ligeira para o Algarve reconhece a necessidade de estudar uma ligação direta à cidade de Loulé, precisamente devido ao afastamento da estação atual.
E depois temos os horários. Como pode alguém optar pelo comboio quando a oferta não acompanha os horários de trabalho, as atividades culturais ou a vida social? A título de exemplo, o último comboio regional de Faro para Vila Real de Santo António parte às 22h10. Para quem trabalha por turnos, pretende usufruir de uma atividade cultural ou simplesmente regressar a casa ao final do dia, estas limitações são particularmente penalizadoras.
A ferrovia precisa de funcionar em função das pessoas, e não apenas de horários que pouco acompanham a realidade quotidiana. Precisamos de maior frequência, melhores ligações e horários alargados, incluindo ao fim de semana.
Mas o problema não termina nos comboios.
A rede de autocarros continua a apresentar fragilidades, quer ao nível da disponibilidade da frota, quer na cobertura territorial e nos horários praticados. Existem localidades mais afastadas dos principais centros urbanos onde a oferta é escassa ou praticamente inexistente.
Para estas populações, deslocar-se para o trabalho, para uma consulta médica ou até para tratar de assuntos quotidianos pode transformar-se num verdadeiro exercício de logística.
Além disso, o preço dos transportes pode representar um encargo significativo para famílias que já enfrentam dificuldades económicas. Não basta disponibilizar um transporte coletivo: é necessário que seja financeiramente acessível, frequente e que chegue efetivamente às pessoas.
Uma solução que merece ser ponderada passa pela expansão dos sistemas de transporte flexível a pedido, através de parcerias entre as autarquias e os operadores de táxi.
Através de uma aplicação digital ou de uma plataforma de reservas telefónicas, os residentes de localidades sem cobertura regular poderiam solicitar uma deslocação em horários previamente definidos. O custo deste serviço seria comparticipado pelas autarquias, garantindo uma tarifa acessível aos utilizadores.
Em vez de manter um autocarro praticamente vazio a percorrer longas distâncias para servir um número reduzido de passageiros, poderíamos recorrer a veículos mais pequenos e flexíveis, ajustando a oferta à procura.
Seria uma forma de otimizar recursos, combater o isolamento das populações e garantir uma resposta mais eficiente em territórios de baixa densidade.
E quanto ao MetroBus do Algarve?
Não podemos deixar cair um projeto com potencial para transformar a mobilidade na região. A ligação prevista entre Olhão, Faro, Aeroporto, Universidade do Algarve, Parque das Cidades e Loulé, com uma extensão aproximada de 37,6 quilómetros, poderá representar um importante avanço na articulação dos principais polos urbanos, económicos, académicos e turísticos.
Mais do que uma infraestrutura de transporte, este projeto poderá contribuir para dinamizar a economia, aproximar territórios, reduzir a circulação automóvel e criar novas oportunidades de desenvolvimento.
Naturalmente, existem desafios de financiamento, execução e articulação entre municípios e Estado. Mas é precisamente nestes momentos que se exige capacidade de diálogo, visão estratégica e compromisso político. Um projeto desta dimensão não pode ficar refém de divergências sobre a repartição dos encargos financeiros.
O Algarve precisa de pensar a mobilidade para além das fronteiras administrativas de cada concelho. Uma rede de transportes verdadeiramente integrada exige cooperação intermunicipal e uma estratégia regional de longo prazo.
Afinal, queremos descarbonizar os automóveis ou transformar a mobilidade?
Recentemente, o Governo anunciou novos incentivos à aquisição de veículos elétricos, incluindo um apoio de até 80% para famílias economicamente vulneráveis, com um limite máximo de 15 mil euros, sem IVA. Trata-se de uma iniciativa que procura promover a transição energética e facilitar o acesso à mobilidade elétrica.
Importa aqui questionar as prioridades na aplicação dos recursos públicos destinados à mobilidade sustentável. Os incentivos à aquisição de automóveis elétricos são, sem dúvida, uma forma de promover a descarbonização, mas será que estamos a investir na solução mais eficiente? A substituição de automóveis a combustão por veículos elétricos não resolve os problemas estruturais da mobilidade: continuamos a precisar de estradas, lugares de estacionamento e cada vez mais postos de carregamento, cuja instalação e manutenção implicam investimentos significativos, além da necessária adaptação das infraestruturas elétricas.
Um automóvel elétrico pode ser menos poluente, mas continua a ocupar espaço, a contribuir para o congestionamento e a alimentar um modelo de mobilidade excessivamente dependente do transporte individual. Corremos, assim, o risco de tornar a frota automóvel mais limpa sem tornar as nossas cidades e localidades mais eficientes, acessíveis ou agradáveis para quem nelas vive.
Não se trata de ser contra os automóveis elétricos, mas de questionar uma estratégia que corre o risco de perpetuar a dependência do transporte individual, em vez de promover alternativas coletivas eficientes.
A transição energética deve ser acompanhada por uma transformação estrutural da mobilidade. E, sobretudo, não podemos confundir o direito à mobilidade com a obrigação de possuir um automóvel.
É precisamente nesta visão integrada que importa considerar propostas defendidas pelo Volt Portugal no seu programa eleitoral para as Legislativas de 2025: investimento de 0,5% do PIB na ferrovia, criação de um Passe Nacional Integrado, válido nas diferentes regiões e operadores, e investimento anual de 180 milhões de euros na mobilidade ativa, nomeadamente em ciclovias e vias pedonais.
São propostas que apontam para uma mudança de paradigma: reforçar os transportes públicos, promover a intermodalidade e devolver às pessoas a liberdade de escolher como se deslocam.
A mobilidade sustentável também começa nas nossas cidades e vilas.
É fundamental investir na expansão das ciclovias, garantindo percursos seguros, contínuos e devidamente articulados com os transportes públicos. A bicicleta deve ser uma alternativa real para deslocações quotidianas, e não apenas um equipamento associado ao lazer ou ao turismo.
Paralelamente, as autarquias devem assumir uma estratégia progressiva de redução da circulação automóvel nos centros urbanos, privilegiando os peões, os transportes coletivos e os modos suaves.
Isto não significa eliminar indiscriminadamente os lugares de estacionamento, mas repensar a forma como ocupamos o espaço público. Precisamos de cidades mais verdes, com mais árvores autóctones, mais zonas de sombra e espaços públicos que convidem à circulação pedonal.
Cada intervenção urbanística deve procurar um equilíbrio entre as necessidades de estacionamento e a qualidade ambiental. Nem todos os espaços disponíveis têm de ser transformados em lugares para automóveis.
A mobilidade deve ainda ser pensada em articulação com o planeamento urbano. Construir habitação, equipamentos públicos e zonas empresariais sem assegurar boas ligações de transporte coletivo é perpetuar um modelo territorial dependente do automóvel.
No fundo, a questão é perceber que modelo de região queremos construir.
O Algarve não pode continuar a apresentar-se como uma região moderna, competitiva e sustentável enquanto obriga uma parte significativa da sua população a depender quase exclusivamente de um automóvel para satisfazer necessidades básicas.
Esta dependência tem custos económicos, sociais e ambientais: aumenta as despesas das famílias, agrava o congestionamento rodoviário, contribui para as emissões poluentes e acentua as desigualdades entre quem tem viatura própria e quem não tem.
A mobilidade não pode ser pensada apenas para os turistas, para a época alta ou para os principais centros urbanos. Tem de responder às necessidades de quem cá vive durante os 365 dias do ano, incluindo quem reside nas localidades mais periféricas e frequentemente esquecido nas decisões de planeamento territorial.
Precisamos de investimento público, de coordenação intermunicipal e de uma estratégia regional que ultrapasse os ciclos políticos e as fronteiras administrativas de cada concelho. Precisamos de ferrovia modernizada, autocarros com maior cobertura e frequência, soluções flexíveis de transporte, ciclovias, passeios acessíveis e uma verdadeira articulação entre os diferentes meios de deslocação.
Não podemos continuar a exigir aos cidadãos comportamentos mais sustentáveis quando não lhes proporcionamos condições para os adotar.
Porque uma região verdadeiramente desenvolvida não é aquela onde todos têm de ter um automóvel para chegar ao seu destino. É aquela onde todos têm liberdade para escolher como se deslocam, sem que essa escolha represente um sacrifício financeiro ou uma limitação ao exercício dos seus direitos.
Enquanto essa liberdade não existir, a mobilidade acessível no Algarve continuará a ser pouco mais do que uma utopia.
Leia também: O Algarve não pode continuar a viver apenas do turismo | Por Bruno Castelão Santos
















