Quando pensamos no Algarve, pensamos quase automaticamente em praias, hotéis, restaurantes e turismo. Não podemos ignorar a importância deste setor para a economia regional, mas devemos questionar se é sustentável continuar a depender tão fortemente dele, bem como do comércio e dos serviços.
Na minha perspetiva, o Algarve precisa de ambicionar mais. Precisa de se afirmar também como uma região de produção, inovação, conhecimento e indústria.
De que serve gerar riqueza se tantos trabalhadores continuam a enfrentar salários baixos, contratos temporários e dificuldades em construir um projeto de vida na região onde trabalham?
Uma economia que precisa de alternativas
O turismo cria emprego e dinamiza a economia, mas a sazonalidade condiciona muitas oportunidades profissionais. Os baixos salários em parte da hotelaria e da restauração, associados à instabilidade laboral, tornam ainda mais urgente a diversificação económica.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados pelo Turismo de Portugal, a remuneração bruta média mensal por posto de trabalho nas atividades de alojamento e restauração foi de 1.145 euros em 2025, face a 1.686 euros na economia nacional. Estes valores são nacionais, não exclusivamente algarvios, mas evidenciam uma diferença salarial que merece reflexão.
Não se trata de desvalorizar quem trabalha no turismo, muito pelo contrário. Trata-se de defender que os algarvios devem ter acesso a mais oportunidades profissionais, melhores condições de trabalho e carreiras que não dependam exclusivamente dos meses de maior procura turística.
A estratégia regional Algarve 2030, promovida pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR Algarve), reconhece a importância da inovação e da diversificação da base económica. O desafio é transformar essa orientação em resultados concretos para a população.
Recuperar a indústria e valorizar os nossos recursos
O Algarve tem recursos naturais, conhecimento científico e uma história industrial que podem servir de ponto de partida para um novo modelo de desenvolvimento.
A indústria conserveira é um exemplo evidente. Olhão e outras localidades algarvias têm uma forte ligação histórica à transformação do pescado, uma atividade que marcou gerações e contribuiu para a identidade económica da região.
Defendo que devemos estudar formas de reimpulsionar este setor, apostando na modernização tecnológica, na qualidade, na inovação dos produtos e na valorização da produção nacional. Não se trata de regressar ao passado, mas de recuperar competências e criar novas oportunidades de emprego e exportação.
Também o aproveitamento sustentável das algas merece maior atenção. A biotecnologia marinha pode abrir oportunidades nas áreas da cosmética, dos ingredientes alimentares, da agricultura e de outras aplicações industriais. A investigação desenvolvida na Universidade do Algarve pode contribuir para aproximar a ciência das empresas e transformar conhecimento em produtos com valor acrescentado.
Naturalmente, qualquer exploração deverá respeitar os ecossistemas marinhos e assentar em estudos de viabilidade económica e ambiental.
A transformação agroalimentar, a valorização da alfarroba, da amêndoa e dos citrinos, as energias renováveis, a reciclagem industrial e as tecnologias de gestão da água são outras áreas que merecem investimento.
Não precisamos de transformar o Algarve num território industrial indiferenciado. Precisamos de desenvolver uma indústria moderna, sustentável e adaptada às características da região.
Uma responsabilidade política
Esta transformação exige uma estratégia articulada entre o Governo, a CCDR Algarve, a AMAL, os municípios, a Universidade do Algarve e o tecido empresarial.
Os municípios não podem limitar-se à promoção turística. Devem identificar oportunidades de investimento, preparar áreas empresariais adequadas e criar condições para a instalação de empresas inovadoras, respeitando o ordenamento do território e os limites ambientais.
É igualmente importante aproveitar os instrumentos de financiamento do Algarve 2030 para apoiar projetos produtivos, fomentar a investigação e aproximar as empresas das instituições de ensino e formação profissional.
O investimento público deve ser avaliado pelos resultados: empregos qualificados criados, salários praticados, empresas desenvolvidas, exportações e riqueza que permanece na região.
Esta estratégia deve ainda chegar ao interior algarvio, promovendo atividades económicas capazes de fixar população e reduzir as desigualdades territoriais.
Não defendo crescimento a qualquer preço. A escassez de água, as alterações climáticas e a proteção dos ecossistemas exigem uma indústria eficiente na utilização dos recursos e ambientalmente responsável.
Que Algarve queremos construir?
Quero um Algarve onde um jovem possa encontrar oportunidades numa empresa tecnológica, numa unidade agroalimentar ou numa indústria ligada ao mar, sem sentir que precisa de sair da região para construir uma carreira.
Quero uma economia que continue a receber visitantes, mas que também produza, transforme, investigue e exporte. Uma economia capaz de gerar riqueza durante todo o ano e de oferecer aos trabalhadores mais estabilidade, melhores perspetivas profissionais e condições de vida dignas.
O sucesso do Algarve não deve ser medido apenas pelo número de turistas ou pelas receitas da época alta. Deve também ser avaliado pela qualidade do emprego, pelos salários e pelas oportunidades que oferece a quem aqui vive.
A diversificação económica não é um luxo: é uma escolha política sobre o futuro da região.
O Algarve não pode continuar a depender excessivamente do turismo enquanto deixa por explorar oportunidades de produção, inovação e valorização dos seus recursos.
É tempo de passar das intenções à ação e de construir um Algarve que seja também uma região industrial, tecnológica e produtiva.
Porque o Algarve não pode viver apenas dos visitantes que chegam. Tem de garantir futuro a quem é de cá e dar oportunidades a quem por cá fica.
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