A dependência da tecnologia e o tempo excessivo passado em frente aos ecrãs são habitualmente associados às gerações mais novas, nascidas na era digital. No entanto, um fenómeno silencioso está a inverter esta perceção comum, afetando uma faixa etária que procura refúgio na luz dos dispositivos móveis, acabando ‘agarrada’ aos ecrãs, para combater a solidão. Os dados mais recentes mostram uma mudança comportamental profunda nas dinâmicas familiares portuguesas, onde o problema surge na ponta oposta da pirâmide etária.
A realidade é exposta pelo semanário Expresso, que dá conta de que o vício no telemóvel chegou com força aos avós e aos reformados. O que começou por ser uma ferramenta de contacto transformou-se, para muitos, numa obsessão que consome horas do dia e substitui o convívio presencial.
O relato de uma reformada de 74 anos ilustra esta nova dependência que preocupa especialistas e familiares. A idosa confessa que os jogos no smartphone lhe ocupam grande parte do tempo, comparando a sensação de alienação a um estado de embriaguez onde os problemas reais desaparecem momentaneamente.
A reforma vivida no telemóvel
Indica a mesma fonte que esta não é uma situação isolada, mas sim uma tendência global que está a crescer em Portugal à medida que o acesso à tecnologia se generaliza. Segundo dados da Marktest, mais de metade dos cidadãos com mais de 64 anos já utiliza internet no telemóvel.
O número de utilizadores intensivos nesta faixa etária tem vindo a aumentar de forma visível nos últimos anos. Cerca de 11 por cento dos idosos passam agora cinco ou mais horas por dia ligados aos ecrãs, um cenário que reflete uma nova forma de viver a aposentação.
Filhos controlam o acesso dos pais
A gravidade da situação está a provocar uma curiosa inversão de papéis no seio das famílias. São cada vez mais os filhos adultos que se veem obrigados a chamar a atenção aos pais ou mesmo a impor limites rígidos à sua utilização tecnológica.
Explica a referida fonte que alguns descendentes chegam a instalar mecanismos de controlo parental nos telemóveis dos progenitores sem o seu conhecimento. Esta medida drástica surge muitas vezes após episódios de burlas online ou fraudes com inteligência artificial que visam especificamente esta população mais vulnerável e menos letrada digitalmente.
O perigo do isolamento social
A solidão e o isolamento social são apontados como os principais motores para este comportamento aditivo na terceira idade. As redes sociais e os jogos oferecem uma gratificação instantânea que preenche o vazio deixado pela falta de atividades ou pela redução do convívio diário.
O uso excessivo acaba por agravar o distanciamento em relação aos familiares mais próximos, mesmo quando estão fisicamente presentes. Há relatos frequentes de avós que deixam de brincar com os netos ou de conversar durante as refeições para se refugiarem no mundo virtual do Facebook ou dos jogos.
Impacto na saúde mental e sono
As consequências deste hábito estendem-se à saúde física e mental dos utilizadores seniores de forma preocupante. A exposição prolongada aos ecrãs promove o sedentarismo e interfere com a qualidade do sono, que já é naturalmente mais fragmentado e frágil nesta fase da vida.
Especialistas alertam que o consumo passivo de conteúdos digitais pode acelerar o declínio cognitivo e aumentar os níveis de ansiedade. A visualização constante de vidas idealizadas nas redes sociais gera frequentemente sentimentos de frustração e inadequação nos utilizadores mais velhos.
Explica ainda o Expresso que, embora o uso moderado da internet possa ter alguns benefícios na preservação da memória, o equilíbrio é difícil de manter. O desafio passa agora por encontrar estratégias que permitam à faixa etária dos mais velhos usufruir da tecnologia sem ficar agarrada aos ecrãs, perderndo a ligação fundamental ao mundo real.
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