A situação de mau tempo associada à tempestade Ingrid continua a marcar a atualidade meteorológica em Portugal, não apenas pela previsão de um nevão “histórico”, pelo frio intenso e pela forte agitação marítima, mas também pelo risco significativo de trovoadas severas e fenómenos de vento extremo localizado, que exigem especial atenção nas próximas horas.
Os modelos de alta resolução, como o AROME e o HARMONIE da AEMET, indicam que a convecção mais intensa deverá desenvolver-se a partir da tarde de hoje, sexta-feira, com potencial para a formação de núcleos convetivos fortes. Estas células poderão dar origem a trovoadas intensas, acompanhadas por fenómenos de vento severo, ainda que de carácter localizado.
Entre os cenários possíveis estão episódios de downburst, uma corrente descendente muito intensa de ar frio que sai de uma nuvem de trovoada e atinge o solo com grande violência, espalhando-se depois horizontalmente, com rajadas que poderão atingir os 100 a 120 km/h, não se excluindo a ocorrência pontual de um tornado. Trata-se de fenómenos raros, mas possíveis, tendo em conta o enquadramento atmosférico previsto, de acordo com o portal especializado em meteorologia Luso Meteo.
Incerteza elevada perto do período crítico
Estas condições resultam da presença de algum CAPE, energia disponível para convecção, associado a cisalhamento de vento significativo. A incerteza mantém-se elevada, mesmo a cerca de 24 horas do período crítico, com divergências relevantes entre os modelos numéricos.
O modelo europeu ECMWF continua a apontar para a existência de uma depressão em altura, cenário que não é totalmente acompanhado por outros modelos, o que aumenta a dificuldade da previsão e obriga a uma monitorização constante.
De forma resumida, quem vive no litoral, sobretudo a sul do Cabo Carvoeiro, deve contar com vento muito forte entre o final do dia de hoje e o início de sábado, dia 24. Ainda assim, em qualquer ponto do território, em especial na metade ocidental e a oeste das principais cadeias montanhosas, poderão ocorrer fenómenos localizados.
O período de maior risco estende-se sensivelmente entre as 15h de hoje e as 3h da madrugada de sábado. Será também nesse intervalo que a neve poderá descer a cotas mais baixas, devido à entrada de ar muito frio em altitude, que pode ser transportado até à superfície pelas correntes descendentes associadas às células mais intensas, de acordo com a mesma fonte.
Trovoadas e vento severo: onde o risco é maior
As trovoadas continuam a ser um dos fenómenos mais difíceis de prever com exatidão, podendo surgir de forma inesperada ou, pelo contrário, não se concretizarem onde inicialmente eram previstas. Ainda assim, a evolução das ferramentas de previsão permite hoje identificar áreas de maior probabilidade.
De acordo com os modelos analisados, o litoral apresenta condições mais favoráveis à ocorrência de trovoadas, com especial incidência no Minho, no litoral dos distritos de Aveiro e Coimbra e também na Costa Vicentina. Isso não significa que o fenómeno fique limitado a estas regiões, mas sim que aí poderá ocorrer com maior frequência e intensidade.
Algumas trovoadas já se registaram nas últimas horas, mas tudo indica que a atividade aumente a partir da tarde, à medida que o ar mais frio avança. As imagens de satélite mostram células bem definidas, que poderão intensificar-se ao atingir o território continental, beneficiando do efeito orográfico. São estas células que podem provocar rajadas muito fortes junto ao litoral, sempre de forma localizada. Em muitos locais nada de relevante acontecerá, mas onde estas células se formarem, o vento poderá ultrapassar os 100 km/h.
Possibilidade de tornado
Em situações mais extremas, alguma destas estruturas convetivas poderá adquirir um comportamento mais agressivo, não sendo totalmente descartada a formação de um tornado ao longo da faixa costeira ocidental.
Alguns modelos destacam ainda a possibilidade de vento muito forte no início da manhã de sábado, nas imediações da Área Metropolitana de Lisboa, associado a um núcleo secundário da depressão Ingrid. No entanto, esta previsão não é consensual e carece de confirmação nas próximas atualizações, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Neve: cotas baixas e acumulações significativas
No que diz respeito à neve, o cenário mantém-se muito semelhante ao previsto anteriormente. O radar meteorológico mostrava já durante a manhã uma intensificação da precipitação, com temperaturas compatíveis com cotas de neve situadas entre os 600 e os 700 metros.
O período mais significativo do episódio de neve ainda está por chegar, tanto em termos de frio como de precipitação. A partir da tarde, a entrada de ar ainda mais frio em altitude deverá potenciar aguaceiros intensos, alguns acompanhados de trovoada. Estas descargas e as correntes descendentes associadas contribuirão para uma descida acentuada da temperatura à superfície. Em alguns locais, os valores poderão aproximar-se dos 0 ºC acima dos 500 metros de altitude.
Em altitude, as temperaturas previstas são particularmente baixas, podendo atingir cerca de -4 ºC aos 1300 metros e valores próximos dos -35 ºC aos 5000 metros. Com este enquadramento, as cotas de neve deverão descer de forma significativa.
Entre o final da tarde e início da noite de hoje, sexta-feira, e a madrugada de sábado, as cotas poderão baixar para os 200 a 300 metros, de forma localizada, sobretudo durante os períodos de precipitação mais intensa. A acumulação de neve continua a ser um dos pontos mais relevantes deste episódio. Nos pontos mais elevados, acima dos 600 a 800 metros, são esperados mais de 30 centímetros, podendo atingir entre 50 e 75 centímetros em várias serras.
Na Serra da Estrela, os modelos continuam a apontar para valores excecionais, com possibilidade de acumulações próximas de um metro nos próximos dias, num episódio que muitos já classificam como um verdadeiro “nevão histórico”, de acordo com o Luso Meteo.
O modelo WRF, considerado um dos mais fiáveis para este tipo de situações, prevê queda de neve em locais menos habituais, como a Penha, em Guimarães, a Serra de Montejunto, Aire e Candeeiros, a Fóia, em Monchique, São Mamede e Marvão, entre muitos outros. Resta agora acompanhar a evolução e confirmar até que ponto estas previsões se concretizam.
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