A possibilidade de um episódio de frio invulgar no final de janeiro está a reabrir o debate sobre a chamada “besta de leste”, um padrão atmosférico que, quando se forma, pode trazer temperaturas muito baixas para várias zonas da Europa e, em determinados cenários, aproximar esse frio de Portugal.
Nos últimos dias, algumas análises meteorológicas apontam para essa hipótese, sublinhando, no entanto, que os modelos de previsão ainda mostram grande instabilidade, com alterações frequentes de cenário e falta de consenso, sobretudo no que diz respeito aos impactos concretos no território nacional.
Por que voltou a falar-se em frio extremo
O interesse em torno deste possível episódio surge da combinação de vários sinais atmosféricos que, quando se alinham, podem favorecer a entrada de massas de ar muito frio no continente europeu, com possível passagem em Portugal, de acordo com o portal especializado em meteorologia Luso Meteo. Trata-se, para já, de uma leitura de tendência e não de uma previsão fechada.
Os próprios meteorologistas reconhecem que, a várias semanas de distância, pequenas mudanças na circulação geral da atmosfera podem alterar por completo o desfecho final, especialmente num país com forte influência marítima como Portugal.
O que significa a “besta de leste”
A expressão “besta de leste” ganhou popularidade após 2018 e refere-se a situações em que ventos de leste transportam ar continental muito frio para a Europa Ocidental. Normalmente, este padrão está associado a sistemas de alta pressão a norte ou nordeste do continente.
Quando estas configurações se instalam durante vários dias, o frio pode tornar-se persistente e afetar áreas pouco habituadas a temperaturas tão baixas, com impacto na vida quotidiana e nos serviços essenciais.
Modelos meteorológicos ainda sem consenso
Um dos principais motivos para a incerteza atual é o comportamento dos modelos de previsão numérica. As simulações são atualizadas várias vezes por dia e, nesta fase, continuam a oscilar entre cenários muito frios e outros bastante mais moderados.
Os chamados ensembles, que agregam várias simulações possíveis, também não mostram ainda uma direção clara, o que obriga a uma leitura cautelosa e a evitar conclusões precipitadas, de acordo com a mesma fonte.
Papel dos bloqueios atmosféricos
Entre os fatores em análise está a possibilidade de formação de bloqueios atmosféricos no Atlântico e no norte da Europa. Estes bloqueios funcionam como barreiras que desviam a circulação normal das depressões e permitem que o ar frio desça de latitudes mais altas. Quando o jato polar se torna mais ondulado do que o habitual, abre-se a porta a contrastes térmicos mais acentuados no continente europeu, sobretudo durante o inverno.
Outro elemento referido nas análises é a Oscilação de Madden-Julian, um fenómeno ligado à convecção tropical que pode, indiretamente, influenciar padrões meteorológicos noutras regiões do globo. Determinadas fases desta oscilação estão associadas a maior probabilidade de bloqueios atmosféricos, mas essa relação não é automática nem garante, por si só, a ocorrência de frio extremo na Europa.
Europa Central mais exposta ao frio
Se este cenário se confirmar, os países da Europa Central e de Leste surgem como os mais vulneráveis a temperaturas muito baixas, com valores negativos acentuados e risco acrescido de impacto nos transportes, na saúde pública e no consumo energético.
Nestas regiões, o frio intenso é mais facilmente sustentado devido à menor influência marítima e à proximidade das massas de ar continental, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Portugal sob influência do Atlântico
Por cá, o cenário é mais incerto. A proximidade de Portugal do Atlântico tende a suavizar extremos térmicos e pode transformar um episódio potencialmente muito frio noutra situação marcada sobretudo por instabilidade, chuva e descida moderada das temperaturas.
Bastam pequenas alterações na posição do anticiclone para que o país fique fora do núcleo mais frio ou, pelo contrário, seja atingido por uma massa de ar mais rigorosa.
Frio seco ou frio com neve
Outro fator decisivo é a quantidade de humidade associada à massa de ar. Um frio mais seco pode resultar em temperaturas baixas, mas com pouca ou nenhuma precipitação, reduzindo a probabilidade de neve. Já uma maior influência marítima aumenta o risco de precipitação e de queda de neve, sobretudo nas zonas do interior e em cotas médias e altas, cenário mais familiar nos invernos portugueses.
O que já está confirmado no curto prazo
Enquanto o eventual frio de final de mês permanece no domínio das hipóteses, o que está confirmado para os próximos dias é um período de tempo mais instável, com chuva, descida das temperaturas e possibilidade de neve nas serras. Estas situações fazem parte da variabilidade normal do inverno e não estão, para já, diretamente ligadas a um episódio extremo como o que é discutido para mais tarde.
O facto de os últimos anos terem sido dos mais quentes desde que há registos não significa que o frio tenha desaparecido. Pelo contrário, as alterações climáticas estão associadas a um aumento da frequência e intensidade de fenómenos extremos. Isso inclui ondas de calor mais intensas, mas também episódios pontuais de frio significativo, que continuam a surgir em determinados contextos atmosféricos, de acordo com o Luso Meteo.
Importância do acompanhamento contínuo
Perante este tipo de cenários, a recomendação passa por acompanhar as atualizações oficiais e dar mais peso às previsões de curto prazo, onde o grau de confiança é maior.
Para já, os sinais apontam para um potencial que merece atenção, mas não para uma situação confirmada. A evolução dos próximos dias será decisiva para perceber se o frio mais intenso ficará pelo centro da Europa ou se poderá aproximar-se de Portugal.
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