Os dias de jogo do Mundial de 2026 voltaram a expor uma realidade que tem sido identificada em grandes competições desportivas: o aumento dos pedidos de ajuda, das denúncias e das agressões contra mulheres nas horas que se seguem aos encontros. Os dados recolhidos em vários países apontam para uma subida da violência, sobretudo depois de jogos com maior carga emocional ou de derrotas das seleções nacionais.
De acordo com o Observador, que cita dados da ONU Mulheres, as agressões contra mulheres aumentaram, em média, 30% durante os dias de jogos do Mundial. Em alguns países onde a competição foi vivida com maior intensidade, como o México, os registos de lesões corporais e os pedidos de socorro cresceram até 38% quando a seleção nacional perdeu. O agravamento é associado a fatores como o consumo excessivo de álcool, a tensão emocional e o aumento das apostas desportivas.
Chamadas de apoio aumentaram após a final
Em Espanha, a conquista do título mundial pela seleção de Luis de la Fuente desencadeou celebrações em todo o país, mas os serviços de apoio às vítimas de violência registaram também uma atividade muito acima do habitual. Segundo o El País, citado pelo Observador, entre as 23:00 de domingo, depois do apito final da final frente à Argentina, e as 07:00 de segunda-feira, as chamadas para o 016, serviço telefónico de apoio às vítimas de violência, aumentaram 120,8% face ao mesmo período da semana anterior.
Ao longo de toda a segunda-feira, verificou-se ainda uma subida de 21,9% nas chamadas. Os contactos por e-mail e WhatsApp também cresceram de forma significativa. Foi a concentração de vários casos graves de violência que levou Isabel Valdés, correspondente do El País para assuntos relacionados com igualdade de género, a investigar uma possível relação entre o Mundial e o aumento das agressões.
Num podcast publicado pelo jornal espanhol, a jornalista explicou que tudo começou quando, na terça-feira seguinte à final, a redação estava a contabilizar quatro feminicídios, em Málaga, Toledo e Alicante. “Quando vários homens praticamente ao mesmo tempo assassinam as suas mulheres ou ex-mulheres, é necessário não só contar cada caso individualmente, mas também fazer uma peça de contexto”, afirmou.
Ao analisar a cronologia dos crimes, Isabel Valdés percebeu que todos tinham ocorrido entre a final do Mundial e as celebrações da vitória espanhola. Depois de solicitar ao Ministério da Igualdade espanhol os dados do serviço 016, confirmou que, durante o dia da final, houve menos chamadas do que era habitual aos domingos, mas a tendência mudou logo após o final do jogo entre Espanha e Argentina.
“O futebol não cria violência”
Apesar da coincidência temporal, especialistas insistem que o futebol não provoca violência machista por si só. “Não é o futebol que gera a violência, tal como não é o álcool que a provoca. São fatores desencadeadores que atuam sobre relações onde a violência já existia previamente”, explicou ao HuffPost Bárbara Zorrilla, psicóloga especializada em violência machista, citada pelo Observador.
A especialista acrescentou que “nenhum agressor agride apenas porque é ano de Mundial ou porque consumiu álcool”. A mesma ideia é defendida por Isabel Valdés, que sublinhou no podcast do El País que o álcool, as drogas, o calor ou o resultado de um jogo “não fazem surgir violência do nada”. “Tudo isso são disparadores, mas disparam algo que já existe. Há inúmeros homens que bebem álcool, cujo clube perde ou que vivem temperaturas elevadas e que nunca recorrem à violência”, afirmou.
As especialistas apontam para uma combinação de fatores que pode aumentar o risco para as vítimas. A elevada carga emocional dos jogos, o consumo de álcool e de outras substâncias, o calor, a permanência prolongada em casa durante os dias de festa e a frustração provocada por uma derrota podem intensificar comportamentos violentos em homens que já exercem violência sobre mulheres.
“Sempre que soa o apito final, o que as espera pode ser uma agressão”
Segundo Bárbara Zorrilla, muitas vítimas acabam por associar o calendário do futebol aos episódios de violência sofridos. “Há mulheres que odeiam o futebol porque os episódios de violência estão marcados pelo calendário da equipa ou da seleção. Sempre que soa o apito final, o que as espera pode ser uma agressão”, explicou.
A psicóloga acrescentou que as derrotas tendem a agravar ainda mais o risco. “Muitos agressores utilizam as mulheres como um saco de boxe. Descarregam nelas a frustração e a tensão acumuladas”, afirmou.
Outro padrão identificado é a diminuição dos pedidos de ajuda enquanto os jogos decorrem, seguida de um aumento significativo nas horas posteriores ao apito final. Segundo Zorrilla, as dez a doze horas depois dos encontros estão entre os períodos de maior risco para as vítimas.
Estudos internacionais apontam padrão semelhante
A coincidência entre o Mundial e o período de férias de verão também pode agravar a vulnerabilidade das vítimas. Com escolas encerradas, menor contacto com serviços de saúde e redes de apoio mais reduzidas, aumenta o tempo de convivência com o agressor e diminui a possibilidade de terceiros identificarem sinais de violência.
Embora ainda não existam estudos científicos dedicados especificamente a esta relação em Espanha ou Portugal, a evidência internacional acumula-se há vários anos. Isabel Valdés recorda investigações realizadas no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Brasil que identificaram padrões semelhantes de agravamento da violência doméstica durante grandes competições desportivas.
Entre os estudos mais citados está uma investigação da Universidade de Lancaster, que analisou dados relativos aos Mundiais de 2002, 2006 e 2010. Os investigadores concluíram que os casos de violência doméstica aumentavam 26% quando Inglaterra ganhava ou empatava e 38% quando perdia. Além disso, registou-se uma subida de 11% das ocorrências no dia seguinte aos jogos da seleção inglesa.
No Brasil, um estudo publicado em 2022 concluiu que, quando duas equipas da mesma cidade disputavam jogos entre segunda e sexta-feira, as denúncias de violência aumentavam 66% e as chamadas para os serviços de apoio cresciam 41% no dia seguinte. Os investigadores verificaram ainda que muitas agressões ocorriam nas quatro horas posteriores ao final dos encontros.
Campanhas de prevenção antes dos grandes eventos
A organização britânica Women’s Aid também tem alertado para esta realidade. Com base em estudos realizados no Reino Unido, a associação sublinha que o futebol “não causa” violência doméstica, mas pode agravar situações já existentes devido ao consumo de álcool e à intensidade emocional associada aos jogos.
Durante o Mundial, a organização voltou a lançar uma campanha de sensibilização inspirada no cântico dos adeptos ingleses “It’s Coming Home”. Sob o lema “He’s coming home”, alertou para o risco enfrentado por muitas mulheres quando os companheiros regressam a casa depois dos jogos.
Perante estes dados, as especialistas defendem o reforço das medidas preventivas durante grandes eventos desportivos. Isabel Valdés considera que as instituições devem apostar em campanhas de sensibilização antes das competições, à semelhança do que acontece no Reino Unido. Recorda ainda que, neste Mundial, a UNICEF e a ONU Mulheres desenvolveram iniciativas de prevenção nos três países organizadores, Estados Unidos, México e Canadá.
Clubes, federações e jogadores podem também ter um papel na divulgação de mensagens contra a violência machista. “A melhor prevenção continua a ser a educação”, afirmou Isabel Valdés, acrescentando que a violência contra as mulheres “não nasce do futebol, mas sim do machismo”. Os grandes eventos desportivos surgem, neste contexto, como mais um cenário capaz de desencadear comportamentos violentos em homens que já os exercem.
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