Num debate televisivo sobre saúde, transmitido este sábado, na SIC Notícias, o médico português Eduardo Barroso recuperou um episódio com mais de duas décadas que descreveu como “a maior ilegalidade” da sua carreira. A história, contada em direto, surgiu no contexto de uma discussão sobre o acesso de imigrantes em situação irregular ao Serviço Nacional de Saúde.
Na intervenção, o cirurgião explicou que tudo aconteceu quando exercia funções como diretor de serviço num hospital de Lisboa. Nessa altura, deu entrada um jovem em coma hepático avançado, um quadro clínico que exigia um transplante nas horas seguintes para garantir a sobrevivência.
Eduardo Barroso recordou que, por coincidência, havia um fígado disponível para transplante. Minutos antes de entrar no bloco operatório, um elemento da equipa alertou-o para uma informação que, segundo relatou, poderia impedir o procedimento.
“Este doente não existe”
O cirurgião contou que a pessoa o avisou de que o jovem era um imigrante sem documentação e que nem a embaixada tinha registo da sua presença em Portugal. A situação, segundo explicou, colocava em causa o direito ao transplante, de acordo com as regras aplicadas à época.
Perante a advertência, Eduardo Barroso partilhou a resposta que deu naquele momento crítico. Disse que se virou para o colega e afirmou: “Sabe o que é que eu disse a essa pessoa? ‘Olhe, esta conversa só existiu daqui a 15 minutos’. E fiz a cirurgia.”
“Um rapaz de 20 anos” que sobreviveu ao transplante
O transplante avançou e o jovem, descrito como “um rapaz de 20 anos”, recuperou após a intervenção. O cirurgião explicou que esse caso permanece como um dos episódios mais marcantes da sua carreira clínica, sublinhando a decisão que tomou perante a urgência da situação.
Este relato foi feito em resposta a uma pergunta sobre a frequência com que imigrantes em situação irregular são atendidos nos hospitais portugueses. Eduardo Barroso disse que, apesar de excecional, este episódio ilustra dilemas que podem surgir na prática médica.
Um desafio deixado aos candidatos presidenciais
No fecho da sua intervenção no debate na SIC Notícias, o médico português afirmou que gostaria que os candidatos à Presidência da República fossem confrontados com uma pergunta direta: o que teriam feito no mesmo cenário?
O desafio ficou lançado no debate, num momento que rapidamente ganhou destaque pela carga humana e ética da situação narrada.
















