
António Piedade (AP) – Qual a recordação mais antiga que tem de si mesmo?
Carlos Fiolhais (CF) – É muito difÃcil responder, pois não me foco muito no passado. Mas lembro-me de morar na Ajuda, em Lisboa, e de andar a brincar nos Jardim da Praça do Império frente aos Jerónimos e a correr na Rosa dos Ventos, junto ao Padrão dos Descobrimentos. Eu era muito novo no Restelo, espero nunca me tornar um “velho do Restelo”. Vim para Coimbra aos 7 anos, onde já me lembro bem da escola dos Olivais e do liceu D. João III, incluindo do exame da quarta classe e da prova de admissão aos liceus.
AP – O seu “entrelaçamento” com a ciência e com a FÃsica ocorre quando?
CF – Fui descobrindo a ciência, em particular a FÃsica, nos anos liceais. Não tanto através das aulas e dos professores (a quem, de resto, muito devo e sem os quais não seria quem sou), mas mais através dos livros de divulgação da ciência, na biblioteca da escola e na Biblioteca Municipal de Coimbra. Requisitava três livros de cada vez, que era o máximo permitido, e passados poucos dias ia lá buscar mais três. Entre eles estavam os livrinhos da colecção “Ciência para Gente Nova” de Rómulo de Carvalho, que mais tarde conheci pessoalmente e que é hoje o patrono de um centro Ciência Viva que fundei. Tomei aà consciência que a ciência, isto é, a busca pelos seres humanos de conhecimento sobre o mundo, era uma aventura na qual também eu podia participar. Depois de entrar na Universidade comecei, ainda que de forma modesta, a fazê-lo e tomei-lhe o gosto.
AP – Tem um papel incomensurável na promoção da cultura cientÃfica em Portugal. É possÃvel haver uma suficiente literacia cientÃfica na sociedade sem haver boa educação de ciências nas escolas? Qual o papel dos comunicadores de ciência neste desafio?
CF – Tenho participado na medida em que sei e posso, em larga medida com outros colegas, em processos, bastante variados, de comunicação da ciência para toda a gente, mostrando que ela faz parte da cultura humana. A cultura cientÃfica pode começar na escola, mas não acaba aÃ. O ensino formal é um meio indispensável, mas o ensino informal, que se faz todos os dias através da imprensa, da rádio, da televisão, da Internet, dos museus, dos jardins e parque naturais, dos sÃtios geológicos, da observação dos céus, etc., é um complemento essencial. Na escola a ciência pode ser mais forte, designadamente começando mais cedo. E, na vida, temos de estar mais atentos à ciência que está por todo o lado. Os comunicadores de ciência, as pessoas que sabem e gostam de transmitir ciência, são mediadores imprescindÃveis entre a ciência e os cidadãos. O seu papel entre nós pode e deve ser maior. Oxalá se criem as condições para isso
AP – Qual o papel da cultura cientÃfica e tecnológica na democracia portuguesa?
CF – A cultura cientÃfica é condição de cidadania nas sociedades modernas. Hoje, ninguém pode estar verdadeiramente apto a participar na sociedade, sem ter uma base mÃnima de conhecimentos da ciência e do método que os proporciona.
Vivemos num tempo da inteligência artificial, da edição genética, da nanotecnologia, etc. em que se abrem novas possibilidades tecnológicas que interferem nas nossas vidas, levantando por isso questões éticas e legais sobre as quais todos somos chamados a participar. Vivemos também num mundo em que há ameaças como as pandemias e as alterações climáticas cuja solução nos desafia a todos.
Além disso, e mais em geral, vivemos num mundo ameaçado por notÃcias falsas, no qual temos de exercer racionalidade, isto é, temos continuadamente de saber distinguir entre a verdade e a mentira.
Ora a ciência é fonte do exercÃcio de espÃrito crÃtico que tão necessário é hoje para a nossa vida.
AP – Os órgãos de comunicação social, nomeadamente a imprensa escrita, desempenham um papel fulcral para uma boa saúde democrática da sociedade. Onde “cabe” a ciência nos média?
CF – Os média, incluindo a imprensa escrita, são o “cimento” da sociedade, ao assegurarem a comunicação de notÃcias e opiniões. Permitem a coesão e também o diálogo democrático. Como boa parte da nossa vida tem hoje a ver com a ciência e a tecnologia que lhe está intimamente associada – bastará referir a saúde, as comunicações, etc. – é natural que a ciência esteja presente nos média. Os jornais de referência, internacionais e nacionais, têm-na desde há muito nas suas páginas e, felizmente, o mesmo tem acontecido mais recentemente com os jornais regionais.
AP – Sabemos da sua enorme paixão pela literatura, pelos livros. Se tivesse de levar só cinco livros para uma viagem interplanetária, quais levaria?
CF – É um desafio muito difÃcil, mas vou tentar, limitando-me apenas a livros de divulgação da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva, que dirijo. Poderia dar-se o caso de encontrar extraterrestres, que não soubessem tanta ciência como nós… “Cosmos” de Carl Sagan; “A Nova Aliança” de Ilya Prigogine e Isabelle Stengers; “Os três primeiros minutos” de Steven Weinberg; “O que é uma lei fÃsica”, de Richard Feynman; e “Quando as Galinhas Tiverem Dentes”, de Stephen Jay Gould. Foram livros que me marcaram e que poderiam marcar os extraterrestres…
AP – Acaba de terminar uma etapa da sua vida enquanto estimado professor universitário de FÃsica. Publicou várias dezenas de livros. Enquanto investigador tem um dos artigos cientÃficos mais citados de cientistas portugueses (mais de 24 mil citações). E agora o futuro? Pode-nos destapar o véu dos seus próximos horizontes?
CF – Hoje é apenas o primeiro dia do resto da minha vida. Espero continuar a viver, tendo agora mais tempo para ler, escrever e espalhar a ciência. Só deixei as aulas e alguma investigação, dando o lugar aos mais novos, mas esperando continuar a fazer investigação na área da História da Ciência e a aprofundar a cultura cientÃfica. Só deixo de ser funcionário, ao fim de 44 anos de actividade ininterrupta desde os 21 anos, mas espero continuar a funcionar…

















