A 15 de Maio de 2026, o Papa Leão XIV assinou a sua primeira encíclica. Não escolheu falar de guerra, nem da pobreza, nem do clima – tudo temas habituais nas inaugurações pontifícias. Escolheu a inteligência artificial. O documento, Magnifica Humanitas, traz no título uma afirmação que parece quase desafiante: a grandeza da humanidade [1]. E coloca-nos perante uma escolha: Erguer mais uma Torre de Babel, ou reconstruir, pedra a pedra, uma cidade comum com todos e para todos. Que um Papa eleja a IA como assunto da sua primeira encíclica diz muita coisa sobre o tempo em que vivemos.
Poucas semanas depois, a 3 de Junho, a revista Nature publicou um artigo que merece a nossa atenção: How good are ‘AI doctors’ – and will they take over medicine? [2]. Recolhe os estudos mais recentes em que algorítmos de IA generativa foram comparados com médicos de carne e osso, e os números surpreendem.
Num estudo publicado na Science em Abril [3], um modelo da OpenAI (chamado o1) reviu informações clínicas de doentes admitidos no serviço de urgência de um hospital de Boston. Acertou no diagnóstico, ou aproximou-se dele, em 67% dos casos. Os dois médicos humanos que participaram ficaram entre os 50% e os 55%.

Num segundo trabalho, ainda em pré-publicação, a Google testou um sistema chamado AMIE (Articulate Medical Intelligence Explorer), que conversa por mensagens com pacientes reais antes da consulta [4]. Em 75% dos casos, o diagnóstico correcto encontrava-se entre as três primeiras hipóteses sugeridas pela máquina. Em 56%, ocupava o primeiro lugar. Resultado equivalente ao dos médicos que vieram a observar os mesmos doentes.
Em ambos os casos, contudo, há ressalvas que matizam o resultado.
No trabalho da Google, embora os diagnósticos do AMIE igualassem os dos médicos, os planos de tratamento que propunha eram menos práticos e mais dispendiosos. Diagnosticar não é tratar: identificar a doença não equivale a saber o que fazer com a pessoa que a tem.
No estudo de Boston, a comparação não reflecte a prática clínica real. Nem os médicos nem o modelo falaram com os doentes: ambos trabalharam apenas a partir de registos e relatórios. Como observou David Wu, médico-residente em Harvard: «A medicina é “desarrumada” e os doentes nem sempre têm histórias como ditam os manuais. Não creio que tenhamos demonstrado que estes sistemas [automáticos] saibam lidar com essa “desordem”.»
É aqui que o discurso de Leão XIV nos toca, sem que ele falasse diretamente de medicina. A encíclica alerta para uma tentação antiga, agora vestida de algoritmo: a de reduzir tudo (incluindo o mistério da pessoa) a dados e desempenho. Um corpo doente não é uma sequência de variáveis. Uma queixa não é uma query. Quem entra num consultório traz consigo medos antigos, biografia, contradições, silêncios, e frequentemente, o paciente mente. A máquina, treinada em manuais e em registos claros e limpos, falha precisamente onde a medicina sempre foi mais difícil: na escuta do que não está escrito.
Seria, contudo, desonesto fingir que os números são modestos: 67% contra 50%! Cinquenta e seis por cento de diagnósticos correctos à primeira tentativa, sem que um doente necessite sequer de despir um braço, é muito relevante. Como observa Robert Wachter da Universidade da Califórnia, “Em três anos passámos de modelos que mal acertavam num exame de escolha múltipla a modelos que acompanham os clínicos em casos complexos”. Atualmente, em vários hospitais do mundo, já são utilizados sistemas de IA que tomam notas pelo médico e renovam receitas sem intervenção humana.
A pergunta que o Papa nos lança aplica-se também aos hospitais e à prática clínica: Que sociedade estamos a construir? A da uniformização eficiente, em que a doença é apenas um problema de classificação? Ou a cidade comum, erguida pedra a pedra, em que cada um (investigadores, clínicos, doentes, legisladores) contribui com a sua parte?
Convém recordar que construir uma cidade nunca foi obra de recusar ferramentas. Foi obra de pedreiros, com instrumentos, cordas e argamassa. O que fez a diferença foi o propósito.
A medicina aproxima-se de uma fronteira que não nos é familiar. De um lado, máquinas que diagnosticam com precisão crescente. Do outro, uma verdade que nenhuma estatística desfaz: o doente continua a precisar de alguém que o ouça, que lhe traduza o medo, que decida com ele e não por ele.
Talvez a melhor leitura da encíclica e do artigo da Nature, lidos lado a lado, seja esta: A inteligência artificial pode acertar no nome da doença. Cabe aos humanos não esquecerem o nome do doente.
Referências:
[1] https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html (2026).
[2] https://doi.org/10.1038/d41586-026-01691-6 (2026).
[3] https://doi.org/10.1126/science.adz4433 (2026).
[4] https://doi.org/10.48550/arXiv.2603.08448 (2026).
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
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