A Nova Bauhaus Europeia é uma iniciativa da Comissão Europeia que visa materializar o Pacto Ecológico Europeu (Green Deal) através da interseção entre sustentabilidade, estética e inclusão. Este movimento propõe repensar setores como a construção, o design e o planeamento urbano – e, por extensão, a gestão marinha através do Bauhaus of the Seas – para alinhar práticas económicas e sociais com os objetivos climáticos da União Europeia: redução de emissões em pelo menos 55% até 2030 e neutralidade carbónica até 2050.
Um dos grandes impactos das últimas décadas, a nível global e local, foi a sobrepesca dos recursos marinhos. Apesar de várias medidas para reduzir a quantidade de vida marinha que tiramos em cada anzol ou rede lançada para o mar, ainda não conseguimos reverter a situação. O relatório mais recente da Organização das Nações Unidades reporta que 40% das populações de peixes continuam a nível mundial continuam a ser exploradas de forma insustentável, o dobro do valor da década de 1980. Em Portugal a situação é semelhante já que 30% dos stocks estão ou estiveram na mesma situação, como a sardinha, a enguia ou os atuns e muitas outras desconhecem-se devido à falta de investigação continua. Além dos impactos diretos, a pesca inevitavelmente captura outras espécies que não são exploradas, algumas protegidas, e danifica importantes habitats da região como as pradarias de Posidonia oceânica –uma planta que surgiu à cerca de 6 milhões de anos no mar Mediterrâneo– ou os corais vermelhos (Corallium rubrum) que têm uma longevidade de mais de 100 anos. Além destes impactos, a perda dos aparelhos de pesca faz com que estes continuem a pescar durante meses e a sua decomposição levará ao aumento da poluição dos plásticos no oceano.
O movimento Nova Bahaus Europeia pode responder aos desafios algarvios incentivando a sustentabilidade e a inovação da pesca. A nível da sustentabilidade, devemos procurar reduzir o nosso consumo de proteína animal e optar por alternativas vegetais. Estas fontes são não só mais amigas do ambiente como mais saudáveis e próximas da alimentação que estamos tradicionalmente e geneticamente habituados – a dieta mediterrânea. Num passo seguinte devemos procurar produtos do mar locais e capturadas de forma sustentável. O Algarve tem uma diversidade incrível no que toca à biodiversidade marinha e devemos preservar esse valor intrínseco à nossa região. Uma alternativa é o Cabaz Fresco Mar, uma plataforma que permite às pessoas encomendar espécies locais, diretamente do produtor para a porta da sua casa. Além da redução e consumo local, devemos também de continuar a estimular a economia circular valorizando restos de redes de pesca que poderia acabar no mar ou em aterros e desenvolver formas de pesca mais seletivas e de baixo impacto nos ecossistemas assim como o uso de embarcações de pesca elétricas – já uma realidade no Algarve. Mas para estes projetos-piloto passarem para a norma do quotidiano vamos precisar da ajuda de todos: investigadores, instituições, autarquias e comunidades.
É a força de todos os participantes que com a experiência coletiva consegue criar as soluções duradouras do presente e do futuro. Qualquer projeto que abdique da pluralidade e diversidade das comunidades está condenado a falhar. Educando e reforçando a inclusão e o envolvimento comunitário transforma utopias em projetos reais. Projetos que podem inclusive iniciar-se por parte de um grupo de pessoas como a criação de comunidades de energia renováveis, iniciativas com forte possibilidade de ser apoiadas a 100% por fundos europeus que gerar energia mais barata, limpa e local. Estas e outras iniciativas de interesse comunitário fazem com que grupos de pessoas em ruas, bairros ou cidades possam aproximar vizinhos e ajudar a restaurar o planeta azul, para que este continue a ser belo, sustentável e inclusivo.
Sobre o autor do artigo: Pedro Leitão tem 32 anos, nasceu em Faro, coberto pelo sol de verão e pela geada do inverno. Fez grande parte da sua vida na cidade de Faro onde acabou por tirar a licenciatura em Biologia Marinha na Universidade do Algarve. Em 2018 – depois da licenciatura e mestrado – começou a trabalhar no Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA), no departamento de recursos marinhos, onde embarcou com os pescadores e integrou campanhas nacionais e internacionais para a gestão das pescas. No IPMA participou em grupos de trabalho de consultadoria à União Europeia. Atualmente está a tirar o doutoramento na Universidade do Algarve, em parceria com o IPMA, para melhorar a gestão das pescas.
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