As chamadas e mensagens de spam tornaram-se uma presença frequente nos telemóveis, surgindo várias vezes no mesmo dia e recorrendo a números ou nomes que parecem legítimos. Entre falsas notificações oficiais, gravações automáticas e contactos identificados como possível fraude, distinguir uma comunicação verdadeira de uma tentativa de burla é cada vez mais difícil.
Atender chamadas de números desconhecidos, responder a mensagens ou seguir as instruções de uma gravação pode ajudar os sistemas utilizados pelos burlões a perceber que determinado número está ativo.
Contudo, não existe a garantia de que atender uma única chamada, sem falar nem carregar em qualquer tecla, provoque automaticamente um aumento do spam. O risco cresce sobretudo quando existe alguma forma de interação, de acordo com a empresa America Online (AOL).
Hábito de atender números desconhecidos
Durante vários dias consecutivos, uma utilizadora, citada pelo portal especializado em economia e negócios Executive Digest, recebeu chamadas e mensagens suspeitas com poucos minutos de intervalo. Algumas pareciam estar associadas a tribunais ou outras entidades oficiais, enquanto outras surgiam no telemóvel com o aviso de “potencial spam”.
Apesar de estar familiarizada com tecnologia, percebeu que até os contactos aparentemente credíveis faziam parte de um padrão mais amplo. A dúvida surgiu naturalmente: porque é que as chamadas indesejadas parecem aumentar depois de se atender um número desconhecido?
O comportamento é comum. Muitas pessoas receiam ignorar uma chamada de um médico, de uma empresa, de um serviço público ou de alguém próximo que esteja a utilizar outro telefone. Ainda assim, o número apresentado no ecrã não permite confirmar, por si só, quem está realmente a ligar.
Burlões conseguem falsificar o número apresentado
Uma das técnicas utilizadas é o caller ID spoofing, que permite falsificar a identificação da chamada. Desta forma, o contacto pode parecer proveniente de um número local, de uma empresa conhecida ou até de um organismo público, embora tenha sido realizado a partir de outro local.
Em Portugal, a ANACOM revelou que recebeu mais de 180 queixas entre 25 de maio e 8 de junho de desde ano relacionadas com chamadas fraudulentas efetuadas em seu nome. Os interlocutores apresentavam-se falsamente como colaboradores ou agentes de fiscalização da entidade.
A própria autoridade já tinha alertado para chamadas que faziam aparecer no ecrã o número oficial 800 206 665. A ANACOM recomendou que os consumidores não atendessem nem devolvessem esses contactos, não confirmassem dados pessoais e verificassem sempre a identidade da entidade por outros meios.
Stanislav Kazanov, responsável pelas áreas de governação, risco, conformidade e cibersegurança na Innowise, explicou que os burlões recorrem ao chamado neighborhood spoofing. “Isto permite disfarçar a localização verdadeira e até usar números com o mesmo indicativo ou com dígitos semelhantes aos do próprio utilizador”, afirmou.
Uma resposta pode confirmar que o número funciona
Segundo especialistas citados pelo jornal digital espanhol HuffPost, muitas chamadas automáticas não começam com uma tentativa direta de roubar dinheiro. O primeiro objetivo pode ser apenas perceber se existe alguém do outro lado e se o número continua atribuído a uma pessoa real.
“O objetivo principal é perceber se há alguém real a atender e se o número está ativo”, referiu Kazanov. Uma saudação, uma conversa prolongada, a devolução da chamada ou a seleção de uma opção podem fornecer informações adicionais aos responsáveis pela campanha.
Bob Gourley, especialista em cibersegurança e autor de “The Cyber Threat”, acrescenta que estes contactos também podem revelar padrões de comportamento. Os sistemas conseguem registar quem atende, a que horas o faz e quanto tempo permanece na chamada, permitindo identificar os destinatários mais propensos a interagir.
Quando um número é considerado funcional, pode tornar-se mais valioso para campanhas futuras e acabar integrado em bases de dados utilizadas ou comercializadas por diferentes redes. Conor White, especialista em identidade digital da empresa privada de tecnologia especializada em verificação de identidade digital, autenticação biométrica e prevenção de fraude Daon, explica que esta partilha ajuda a justificar o aumento progressivo de chamadas depois dos primeiros contactos.
Fugas de dados e inteligência artificial agravam problema
Os números de telefone podem ser obtidos através de formulários, inscrições em serviços, aplicações, bases de dados comercializadas ou fugas de informação. Noutras situações, os sistemas geram combinações de números automaticamente e fazem chamadas em massa para identificar aqueles que estão ativos.
A inteligência artificial acrescentou uma nova dimensão às fraudes telefónicas. A Europol alerta que a clonagem de voz e os vídeos manipulados em tempo real podem ser utilizados em esquemas de fraude, extorsão e roubo de identidade, tornando os contactos mais credíveis.
Nas mensagens escritas, o risco de confirmar um número funcional está documentado de forma mais clara. A Federal Trade Commission alerta que até uma resposta breve a um contacto desconhecido permite confirmar que a mensagem chegou a um número ativo, o que pode originar novas chamadas ou mensagens fraudulentas.
Também não se deve carregar em teclas para falar com um operador ou para alegadamente retirar o número de uma lista, de acordo com as fontes anteriormente citadas. Em chamadas automáticas fraudulentas, essa ação pode indicar que existe uma pessoa disposta a seguir instruções e provocar mais contactos.
Falsos tribunais, polícias e entidades públicas
As referências a tribunais, bancos, polícias ou organismos públicos não tornam uma chamada verdadeira. Os criminosos exploram a autoridade e o receio associados a estas entidades para pressionar as vítimas a agir rapidamente, partilhar informações ou transferir dinheiro.
A Polícia Judiciária (PJ) já alertou para chamadas com gravações em inglês que se apresentam falsamente como contactos da própria PJ ou da Europol. Depois de selecionar uma opção, a vítima é informada de que a sua conta bancária está envolvida num crime e aconselhada a transferir o dinheiro para alegadas “contas seguras”.
Perante um contacto suspeito, a recomendação do Centro Nacional de Cibersegurança é confirmar a origem da chamada por outra via, não fornecer dados pessoais e não seguir instruções sem verificar a veracidade do pedido junto da entidade mencionada.
Quando não reconhece o número, o mais seguro é deixar a chamada terminar e verificar se foi deixada uma mensagem. Caso o interlocutor diga representar um banco, tribunal, empresa ou organismo público, deve desligar e contactar diretamente a entidade através do número publicado no respetivo site oficial.
Os números suspeitos podem ainda ser bloqueados e assinalados como spam. Se houver pedidos de dinheiro, recolha de dados pessoais ou outras tentativas de fraude, deve guardar o número, a data e a hora do contacto e denunciar a situação às autoridades competentes. “Se suspeita que é spam, provavelmente é mesmo spam”, resumiu Conor White.
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