Há a luz, as paisagens, a comida, o tempo e o sol. Mas, para Miguel Esteves Cardoso, há uma razão que se sobrepõe a todas as outras quando chega o momento de regressar ao Sul do país: a água do Algarve.
O escritor e cronista dedicou-lhe o texto publicado na edição de 20 de junho do Fugas, suplemento do Público. Uma declaração de amor ao mar algarvio que começa, desde logo, com uma reflexão sobre a vida, a memória e as coisas que verdadeiramente valeram a pena.
“Quando Deus me tirar tudo”, escreve Miguel Esteves Cardoso, gostaria que quem procurasse aquilo que lhe deu prazer ao longo da vida passasse os olhos por aquela crónica. É ali, explica, que fala de algo que “chega para fazer a distinção entre a vida e a morte: a água do Algarve”.
Não é que lhe sejam indiferentes os restantes encantos da região. O cronista enumera-os: “a luz do Algarve”, “o povo do Algarve”, “as paisagens”, “a comida”, “o tempo”, “a casa” e “o sol”. Ainda assim, não deixa dúvidas sobre aquilo que verdadeiramente o atrai.
“Quando eu vou ao Algarve, vou pela água do Algarve”, afirma.
Uma água que é preciso conquistar
Miguel Esteves Cardoso constrói a crónica a partir do contraste entre as praias algarvias e o Atlântico que acompanha grande parte da costa portuguesa. Um mar que admira, mas ao qual aponta, com humor, dois pequenos defeitos: “é frio e quer-nos matar”.
É precisamente por comparação com esse oceano mais agreste que a água do Algarve ganha outra dimensão. Não é tropical, nem está sempre quente, mas também não o pretende ser. Para o cronista, a sua frescura faz parte da experiência.
“A água onde nos banhamos tem de estar viva. Tem de variar. Tem de nos surpreender”, escreve, defendendo que o primeiro contacto deve exigir algum esforço. “A água do mar tem de ser uma conquista fácil. Mas tem de ser uma conquista.”
O autor reconhece, ainda assim, a exigência dos portugueses, que percorrem quilómetros até ao Algarve e chegam com expectativas elevadas. Não lhes basta encontrar um mar menos violento: também querem que esteja quente. Felizmente, observa, bastam cerca de 22 graus para se sentirem “no paraíso”.
Entre o Barlavento e o Sotavento
“O Sotavento e o Barlavento são os hemisférios norte e sul de outro mundo”, escreve. Um mundo que se parece com o nosso, acrescenta, mas que surge “aperfeiçoado”.
Essa variedade permite, segundo o cronista, procurar a água que melhor corresponde ao estado de espírito de cada um. “A água do Algarve varia como a nossa alma. Se não vai ao encontro dela, basta chegarmo-nos mais um bocadinho à direita ou à esquerda”, observa.
“A melhor água do mundo”
Miguel Esteves Cardoso escolhe três pormenores que resumem aquilo que mais ama no mar algarvio: o verde da água quando se entra, as pequenas ondas dos dias mais calmos e as correntes de água quente que parecem conduzir os banhistas até uma banheira imaginária.
A promessa nunca chega a cumprir-se. Em vez da tal banheira, o cronista acaba deitado junto à margem, com o corpo entre a água e a areia, a chapinhar como uma criança. E conclui que poucas coisas sabem tão bem.
“Sabe muito, a água do Algarve”, escreve no remate da crónica. “Sabe muito bem que é a melhor água do mundo. Pelo menos, do nosso.”
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