Há projetos urbanos concebidos para serem habitados e outros que funcionam também como espaços de experimentação. Nestes locais, as rotinas mais simples, como caminhar, receber uma encomenda ou deslocar-se até ao trabalho, ajudam a testar tecnologias antes de estas chegarem às cidades convencionais.
É este o princípio da Woven City, uma cidade experimental construída pela Toyota em Susono, na província japonesa de Shizuoka, perto do Monte Fuji. Robótica, inteligência artificial e novas formas de mobilidade são testadas diariamente num ambiente onde já vivem cerca de 100 pessoas.
Laboratório urbano com habitantes reais
A primeira fase da Woven City ocupa aproximadamente 47.000 metros quadrados, segundo uma reportagem da Euronews, baseada em informação da Associated Press. A Toyota apresenta um valor arredondado de cerca de 50.000 metros quadrados.
Os primeiros moradores, designados pelo projeto como “weavers”, partilham o espaço com veículos autónomos, pequenos robôs de entrega e sistemas orientados por inteligência artificial. A população deverá crescer gradualmente, à medida que forem abertas novas áreas. A primeira fase foi preparada para acolher cerca de 360 residentes. Quando as etapas seguintes estiverem concluídas, a Toyota prevê que a população possa aproximar-se das 2.000 pessoas.
Cidade nasceu no terreno de uma antiga fábrica
A Woven City está a ser construída no local onde funcionou a fábrica Higashi-Fuji da Toyota Motor East Japan. A unidade industrial encerrou em 2020, depois de mais de cinco décadas ligada à produção automóvel. O conceito da nova cidade foi apresentado na feira tecnológica CES, em janeiro de 2020. As obras começaram em fevereiro de 2021 e a construção dos edifícios da primeira fase terminou em outubro de 2024, segundo a Toyota.
O nome escolhido recorda as origens da empresa. Antes de entrar na indústria automóvel, a família Toyoda esteve ligada ao desenvolvimento e fabrico de teares, equipamentos utilizados para entrelaçar os fios na produção de tecidos.
Ruas foram separadas de acordo com a mobilidade
O plano urbano, desenvolvido com a participação do gabinete do arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels, procura separar diferentes velocidades e formas de deslocação. Algumas vias destinam-se aos transportes mais rápidos, enquanto outras são partilhadas por peões e pequenos meios de mobilidade.
Existem ainda percursos reservados exclusivamente a quem se desloca a pé. As diferentes ruas cruzam-se numa malha urbana organizada em torno de jardins, pátios e espaços de convivência.
A apresentação original do projeto previa que os veículos utilizados nas vias mais rápidas fossem autónomos e sem emissões. A divisão procura permitir testes entre peões, automóveis, bicicletas, equipamentos pessoais e robôs em diferentes situações do quotidiano, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Parte da circulação acontece debaixo da cidade
Uma das características menos visíveis da Woven City encontra-se no subsolo. Uma rede de passagens permite transportar mercadorias e encomendas sem ocupar as ruas utilizadas pelos moradores. Os produtos chegam a uma zona central e são depois distribuídos através de sistemas logísticos autónomos. Os robôs percorrem os túneis até aos edifícios, reduzindo a necessidade de veículos de entrega à superfície.
As passagens subterrâneas acolhem igualmente parte das infraestruturas técnicas da cidade. O conceito inclui armazenamento de energia, sistemas de tratamento de água e equipamentos associados à utilização de hidrogénio.
Casas também fazem parte dos testes
A experimentação não termina quando os moradores entram em casa. As habitações foram preparadas para testar robôs domésticos, sensores e sistemas de inteligência artificial destinados a apoiar tarefas rotineiras.
Os equipamentos podem ser utilizados para transportar objetos, acompanhar determinados padrões dentro da habitação ou avaliar soluções de apoio a pessoas com mobilidade reduzida. Cada utilização permite recolher informação sobre o funcionamento do protótipo em condições reais.
Na superfície, estão também previstos testes relacionados com segurança rodoviária, serviços autónomos, novos veículos e simulações de formas de transporte que ainda não fazem parte do quotidiano, incluindo conceitos semelhantes a táxis voadores.
Moradores tornam-se participantes da experiência
A presença de pessoas é uma parte essencial do projeto. Ao utilizarem os serviços, os moradores podem indicar se uma solução é realmente útil, se interfere com as suas rotinas ou se precisa de ser modificada.
O especialista do setor automóvel Shinya Yamamoto, citado pela mesma fonte, comparou este papel ao de um condutor de testes. A diferença é que, neste caso, a avaliação não decorre numa pista, mas durante atividades comuns, como atravessar uma rua, receber uma encomenda ou utilizar um serviço doméstico.
De acordo com o site oficial da Woven City, empresas do grupo Toyota, startups, universidades e instituições de investigação podem desenvolver produtos no local. Residentes e visitantes participam depois na respetiva avaliação.
Dados poderão ajudar a definir novas regras
Daisuke Toyoda, então vice-presidente executivo da Woven by Toyota e responsável pela gestão do projeto, explicou que os dados relativos aos movimentos das pessoas e aos fluxos de peões poderão ser ligados à informação recolhida pelos veículos.
O objetivo anunciado passa por perceber como pessoas e máquinas reagem quando utilizam o mesmo espaço. A informação poderá ser usada para aperfeiçoar sistemas de segurança e reduzir riscos para condutores, passageiros e peões.
Os responsáveis consideram que este ambiente controlado permite demonstrar primeiro se uma tecnologia funciona e se reúne condições de segurança. Os resultados poderão posteriormente ser apresentados às autoridades para apoiar a preparação ou revisão de regras aplicáveis aos sistemas autónomos.
Projeto poderá custar milhares de milhões
As estimativas divulgadas pela Associated Press e reproduzidas pela Euronews colocam o custo global da Woven City em cerca de 10 mil milhões de dólares. A Toyota, contudo, não confirmou publicamente um orçamento final para toda a construção.
Também existem diferenças nos valores divulgados sobre a dimensão futura. A reportagem aponta para cerca de 294.000 metros quadrados, enquanto a documentação oficial da Toyota indica que o terreno global destinado ao desenvolvimento poderá aproximar-se dos 708.000 metros quadrados.
A diferença poderá resultar das áreas consideradas em cada cálculo, nomeadamente entre a parte efetivamente urbanizada e o terreno total disponível. A Woven City continuará a ser desenvolvida por fases, com a evolução das etapas seguintes dependente dos resultados obtidos na área que já está habitada.
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