Um novo estudo liderado pela Universidade de Oxford conclui que o calor extremo vai atingir milhares de milhões de pessoas mais cedo do que se pensava, com impactos relevantes já nesta década. As projeções apontam para um forte aumento da exposição até 2050, sobretudo se o aquecimento global chegar aos 2ºC.
De acordo com a SIC Notícias, o calor extremo deixou de ser um risco “distante”: um novo estudo conclui que os impactos mais significativos podem sentir-se já nesta década, à medida que o planeta se aproxima do limite de 1,5ºC de aquecimento, afetando países pobres e ricos.
O trabalho, publicado na revista Nature Sustainability, analisou diferentes cenários de aquecimento global e estimou quantas pessoas poderão viver em regiões onde as temperaturas ultrapassam limites considerados seguros para a adaptação humana.
Segundo as projeções, se a temperatura média global subir 2ºC acima dos níveis pré-industriais, o número de pessoas expostas a calor extremo poderá quase duplicar até 2050, atingindo cerca de 3,79 mil milhões (face a 1,54 mil milhões em 2010).
Impacto antecipado com o limite de 1,5ºC
O principal autor, Jesus Lizana, sublinhou que “a necessidade de adaptação ao calor extremo é mais urgente do que se estimava”, defendendo novas infraestruturas “nos próximos anos”, como arrefecimento passivo e ar condicionado sustentável, em declarações à Agence France-Presse.
A mensagem central do estudo é que o risco não fica “confinado” aos trópicos: as regiões mais quentes continuam a ser as mais pressionadas, mas as zonas temperadas também podem ser apanhadas desprevenidas, porque muitas cidades e edifícios não foram pensados para ondas de calor mais frequentes.
Além do impacto direto na saúde, o aumento dos dias em que será necessária refrigeração (ventoinhas e ar condicionado) pode acelerar a procura de energia, criando novos desafios para redes elétricas e custos de eletricidade, sobretudo em países com menor capacidade de resposta.
Quem está mais exposto ao calor extremo e porquê
Em termos de população potencialmente afetada, o estudo aponta grandes concentrações em países como Índia, Nigéria, Indonésia, Bangladesh, Paquistão e Filipinas.
Outras projeções destacam aumentos relevantes do risco em zonas tropicais e equatoriais, incluindo países como Laos, Brasil, República Centro-Africana e Sudão do Sul, onde a vulnerabilidade pode agravar-se com menor acesso a refrigeração e serviços de saúde.
A coautora Radhika Khosla alerta que os mais desfavorecidos tendem a ser os que mais sofrem com o aumento dos dias quentes, um padrão que reforça desigualdades e pressiona políticas públicas de adaptação.
Adaptação urgente e o desafio da energia
Os autores sublinham que as nações mais ricas também enfrentam um problema real: países de clima mais frio podem registar menos dias de aquecimento, mas ainda assim ver crescer os dias de calor para os quais não estão preparados, como Canadá, Rússia e Finlândia.
Do ponto de vista de saúde pública, a resposta passa por planos de ação para ondas de calor, com alertas, proteção de grupos vulneráveis e coordenação entre saúde e meteorologia, recomendações que a Organização Mundial da Saúde defende há anos para reduzir riscos evitáveis.
Ao mesmo tempo, a adaptação física (edifícios mais frescos, sombreamento, soluções baseadas na natureza e requalificação urbana) é apontada como parte do caminho, tal como reconhece o IPCC nas sínteses sobre adaptação em cidades.
Em paralelo, cresce o desafio energético: a procura de arrefecimento está a aumentar rapidamente e pode “testar” redes elétricas, o que reforça a necessidade de eficiência e soluções de refrigeração sustentáveis, sobretudo em economias emergentes.
















